Estação Rodoviária

Cheguei na  Estação Rodoviária do Tiete.  Muita gente… um zum zum  zum.. pessoas vindo, indo, carrinhos, malas com rodinhas,  um turbilhão muito agitado e constante … De longe avisto finalmente o guichê de passagens.  Uma fila… crianças, senhoras, rapazes e … não vejo nenhum sênior.  Sou a única  velha da fila.  Tento me fazer respeitar e aproveitar a tal da preferencial da terceira idade… mas aqui não funciona… Todos estão estressados e cada um quer ser o primeiro da fila.  De repente, surge não sei de onde, um rapazola de  túnica amarela onde se destaca um crachá com  o nome da companhia.  Timidamente el chega para perguntar de voz baixa -“Alguém vai pagar com cartão?”.  Eu me adianto pensando   “é aí que passo na frente de todos”.  O jovem sorri ao me ver nervosa.  -“Fique calma senhora,  eu a levo até lá,  não precisará esperar”.  Ufa, que alivio.  Ele, gentilmente me ajuda e se encarrega de levar a mala; eu respiro mais aliviada!  Lá, no final do corredor abre-se uma porta de vidro e ingresso numa sala repleta de caixas automáticos, são dez ao todo, Cinco de cada lado.  No fundo, um balcão onde duas moças uniformizadas se revezam para atender viajantes.

O  rapazola Lucas,  pergunta o meu itinerário. Eu digo Campos do Jordão e pergunto se o ônibus para antes de chegar ao seu destino.  Lucas não parece ter muita experiência.  Ele interpela uma das moças de uniforme  -“Sim, em Aparecida” . Então se dirige a um dos caixas e começa a digitar.  Eu não entendo nada! A máquina vomita vários comprovantes;  comprovante de viagem, de seguro, do cartão, cópia do comprador, cópia do vendedor,  é muito papel que ele me entrega sorridente.  Verifico os ‘tickets’ .  Não, não pode ser…. eles indicam como destino Aparecida… e já está tudo pago… Solto um oh, seguido de ai e desesperada já começo a imaginar o pior… Em meio a este turbilhão de pessoas e de máquinas, o que é que vou fazer em Aparecida!!!!    Mas então vem a moça de uniforme, no crachá o seu nome Graciele.  -“Está tudo bem Lucas, eu faço o estorno e emito nova passagem”. Lucas se confundiu,  ouviu Aparecida e esqueceu Campos do Jordão.  Graciele é muito gentil,  e permite que eu fique sentada ao seu lado enquanto digita o estorno num pequeno computador.  Finalmente, após 45 minutos está tudo corrigido. Graciele riu muito me assegurando que,  rezar em Aparecida, certamente ficará para  outra ocasião.   Agora o meu destino é certo.  Respiro aliviada.  Ela sorri, me acompanha até a grande porta de vidro e me indica o terminal  onde devo pegar o ônibus.  A mala está cada vez mais pesada. O corredor  do Terminal de Ônibus  parece interminável.  -“É só pegar o elevador” diz um senhor de meia idade.  -“A escada rolante está logo ali” diz uma moça.  Estou cansada e não vejo o elevador.  Vou pela escada rolante e a mala pesa!  Um rapazinho tem pena e se oferece para me ajudar a descer com a mala.   Aleluia!  Finalmente cheguei no portão de embarque!

Despacho a minha mala e subo no ônibus.  Minha poltrona é do lado do corredor. Sento. Nada mais me preocupa, são três horas de viagem e até lá vou fechar os olhos e relaxar.  Como se isto fosse possível !!!   Na minha frente um senhor de cabelos grisalhos, já no início da viajem, inclina o seu banco totalmente para traz e me deixa prensada… Nem posso esticar as pernas! Ao meu lado uma senhora  sentada de pernas cruzadas, muito magra, com cabelo grisalho me dá um sorriso seco!  Eu penso: -‘como é que ela consegue cruzar as pernas num espaço tão estreito?’  Me acomodo como posso e o ônibus inicia a sua trajetória.  Nem saímos ainda de São Paulo, ela tira os óculos e começa a me contar que só vai passar alguns dias fora, que foi casada,  agora é viúva, tem três filhos e relata o que cada um faz.  Ela é pianista e eu quero dormir… Fecho os olhos, mas ela está tão empolgada que continua sem se dar conta que fechei os olhos…. E a viagem segue; falta pouco, apenas mais uma horinha… Minha vizinha não parou de falar um minuto sequer.  Quando penso que vai se fazer silêncio, o passageiro de trás começa a puxar conversa com o passageiro do lado. Uma voz alta de barítono que acorda todo ônibus.  Agora a chance de relaxar está cada vez  menor…  Ainda bem que trinta minutos passam rapidamente. Finalmente chego ao meu destino.  Os passageiros já estão enfileirados, prontos para descer.  E, a senhora continua falando atrás de mim. Ela não tem bagagem, bate no meu ombro e diz .  – “Tirou uma boa soneca, né! Então, até logo e boa estadia” .  Será que não percebeu que eu só estava fingindo! Desço,  me dirijo ao bagageiro , pego a minha malinha e me apresso em direção ao carro que acaba de chegar.  Estou feliz em rever o rosto querido da minha amada amiga.

 

 

 

Carta de um espelho

Passados quatro anos olhou-se no espelho novamente…

Espelho, espelho meu, diga –me:  sou agora diferente?

Querida

Quando o teu semblante, tua imagem alegre e o brilho dos teus olhos verdes refletiram, pude imediatamente entender que ali está a felicidade. Ver este rosto iluminado com o sorriso alegre é simplesmente contagiante.

O tempo passou e você parece ter esquecido as preocupações e  toda tristeza. Posso ler a tua mente e, te vejo  passear por um campo cheio de margaridas onde o vento sopra suavemente.  São as mesmas margaridas cujas sementes tua querida mãe costumava plantar e regar até crescerem e transformar o solo do jardim num alegre tapete colorido.

Como é bom sentir a tua imagem traduzir a felicidade e o amor, pois a vida, apesar dos seus obstáculos, vale a pena ser vivida.

É em mim que resplandece a alma e, é com o seu reflexo que se pode ver quem está do outro lado.

Amiga, eu sou o teu espelho e quero te ver sempre assim.  Quero poder refletir sempre esta imagem alegre, tão divertida e comunicativa.

Também preciso te dizer que estou grato por aquilo que você reflete e pelo sentimento de amor que emana, sentimento este que é a essência de tudo.

Keep smiling!

Vicky a cachorrinha pintada

 

A casa grande da Avenida Angelica estava toda iluminada.

O Shabat  já tinha terminado.

A luz ainda estava acesa no dormitório dos 4 garotos de 5 e 6 anos.  Eles estavam sentados, cada um na sua cama, vestindo pijama com estampas diferentes .

Eles aguardavam Miriam, a irmã mais velha.  Sabiam que se comportaram  muito bem e que a recompensa seria uma história antes de dormir.

Miriam entrou no quarto, deu um beijo de boa noite em cada um dos meninos e eles deslizaram para dentro dos lençóis.

-“Vai nos contar uma historia?” insistiu um menino de cabelos castanhos com franjinha e olhos verdes..

Miriam sorriu, sentou-se numa das camas, passou a mão na cabeça, num gesto de quem não sabe o que vai contar, e começou.

-“Bem, hoje vou contar a história da Aninha e de sua cachorrinha “

E, começou.

Aninha era uma menina de 13 anos e meio, de família muito humilde e morava em São José, um bairro pobre de João Pessoa que fica na  Paraíba. Ela era a mais velha;  por isto tinha que cuidar de suas 4 irmãzinhas. Só podia ir á escola se a mãe, que era diarista, ficasse em casa.  O pai tinha falecido.  O sonho de Aninha, que apesar de muito jovem era muito madura,  era sair de São José e ir para São Paulo  trabalhar,  ganhar dinheiro e estudar. Aninha queria  se tornar professora.   A prima Elsa, esta sim, tinha um emprego bom  em São Paulo. Aninha  tinha pedido secretamente para prima arrumar um lugar para trabalhar.  Um dia veio carta da prima avisando que  podia vir para São Paulo, pois tinha arranjado um emprego numa casa de família e com a carta veio o dinheiro da passagem e o endereço. Então, chegou o dia  e, mesmo com o coração apertado se despediu da mãe e dos irmãozinhos tristes.  Mas era o seu futuro…..

Foi assim que Aninha, aos 14 anos foi trabalhar na mansão de madame.

Madame morava numa casa muito grande lá na rua Estados Unidos  com  os gatos Pife e  Pafe  e  seu cachorro Mingo, um dálmata todo manchado.  A casa estava sempre cheia de visitas e Aninha  cozinhava, lavava e cuidava de tudo sozinha. Era muito trabalho,  mas ela gostava, pois tinha o seu cantinho, um quartinho bem modesto mas só dela.  Ela logo se acostumou com estava vida.

Um dia a menina teve que ir numa farmácia um pouco distante da casa.  Ao sair, viu um cachorrinho de pelo  marrom com colarinho e focinho  branquinho que, sentado, olhava para ela meio triste.

Era pequeno, um filhote sem raça definida.  Ela ficou encantada com ele, chegou perto, fez um carinho e em agradecimento recebeu duas lambidas. Com o coração apertado ela se separou do cãozinho e  foi andando de volta para casa. 

No entanto, o cachorrinho começou a segui-la.  Quando ela parava, ele também parava.  Ela continuou andando e o cãozinho a seguia.  –“Você não pode vir comigo!”  -“Vai embora..”  E ela continuava o seu caminho. Mas o cãozinho a seguia abanando o rabinho.  –“vá… xô.. não quero você.”  Aninha olhou para ele e num desespero exclamou –“Não pode vir comigo e eu não posso te levar.  Madame vai brigar comigo!” Bateu com os pés, tentou afugentar o animalzinho, mas de nada adiantou.  Ele fazia  meia volta, tentando enganá-la  e retornava trotando atrás dela. Durante todo o trajeto foi assim.

Aninha  tentou correr, se esconder atrás de um poste, de uma árvore, mas não houve jeito de espantar este bichinho que não desgrudava dela.  

Quando chegou  no portão, empurrou o quatro patas e, rapidamente,  entrou.   O que Aninha  não sabia,  é que havia um buraquinho na  cerca e foi aí,  que o cachorro conseguiu atravessar. 

Ela nem tinha chegado perto da porta quando viu o cãozinho sentado no primeiro degrau da escada, com as orelhinhas em pé todo feliz.  “Ai, meu Deus!” pensou.    –“O que é que vou fazer com você?!”  

O olhar do animalzinho  tocou o seu coração de menina.   

Então, não resistiu,   pegou ele, escondeu no avental e correu para o seu quarto.  Madame   já chamava por ela. 

Rapidamente abriu uma gaveta da cômoda que forrou com uma toalha e lá acomodou o animalzinho a quem deu o nome de Vicky.  –“Preste bem atenção”, disse  “Não pode chorar, latir ou fazer qualquer barulho, entendeu?!”   e foi atender madame.

E assim os dias passavam.  Aninha   trabalhava  mas dava umas escapadas para cuidar da Vicky com quem ela dividia as suas refeições.  De noite,  após o trabalho,  ia  passear no jardim da casa onde ela ensinava o animalzinho a pegar jornal, dar a patinha, rolar e fazer reverência e outras coisas também..  Tudo, em segredo, sem  madame saber.  Vicky parecia entender e adorava os momentos quando Aninha  a pegava no colo e ficava conversando acariciando a sua cabecinha.  Assim, a  amizade entre os dois foi se fortalecendo a cada dia.

Vicky estava crescendo, estava mais gordinha, seu pelo se tinha tornado dourado e macio, as orelhas estavam mais firmes e foi necessário trocar a sua moradia  “da gaveta”  para ‘debaixo da cama’.      Só que Vicky não ia ficar muito tempo sozinha! Os gatos Pife e Pafe logo a descobriram e os três se tornaram grandes amigos bagunceiros.

Pife era um gato siamês de olhos verdes com o pelo branco e cinza, sempre pronto para qualquer brincadeira e Pafe, um belo gato preto  que só se preocupava com a sua “toalete”  e ficava  horas se lambendo na sombra de uma árvore que havia no jardim.

Durante o dia, enquanto Aninha trabalhava, os três brincavam, bagunçando todo quarto de Aninha que ficava “de pernas pro ar”.  Aninha dava bronca, mas isto de nada adiantava. Os gatinhos desapareciam  num piscar de olho e Vicky ia se esconder debaixo da cama.

Certo dia, Aninha saiu para  fazer compras.  Quando voltou deixou as compras na cozinha e, como sempre fazia, foi para o quarto para ver Vicky,.  Ao abrir a porta, ficou  atônita !

Lá  estava madame, grudada no chão  como uma estatua  e Vicky sentada tranquilamente no tapetinho do quarto abanando o rabinho e os gatinhos assustados debaixo da cama.   –“O que é isto, quem te deu permissão de trazer um cão na minha casa?” Ela gritava   –“Garota, você tem uma semana para se livrar deste animal. Se ele ainda estiver aqui depois, vocês vão pra rua, os dois!  Entendeu bem!”       

Aninha tentou explicar,  mas madame estava  muito brava e não queria ouvir   nada.

Devia ter contado sobre a Vicky desde o principio,  foi um erro! Agora estava muito arrependida por não o ter feito!

Aninha correu, abraçou Vicky e chorou.  Não sabia o que fazer, tinha se apegado muito àquele animalzinho que era tudo para ela. No entanto, não tinha para onde ir. O que fazer; voltar para João Pessoa ? De jeito nenhum !  A prima certamente não ia poder ajudar; ela estava em casa de outra madame! 

Então, no dia seguinte, Aninha pegou o cãozinho,  levou-o e, muito a contragosto, foi oferecendo Vicky para as pessoas da vizinhança .  Foi de porta em porta para ver se alguém ia querer ficar com a cachorrinha .  Ninguém  a queria  nem mesmo as pessoas na rua.  Tentou todos os dias e quando chegou o fim de semana, Vicky ainda estava com ela. Não houve outro jeito; foi falar com a patroa . – “Madame”, disse ela  -“Ainda não consegui me livrar do meu cãozinho; me dá mais três dias, por favor.”  e madame concordou.

Durante os dias seguintes, a menina saiu diversas vezes  para fazer compras,  tentar encontrar um novo lar para Vicky e se separar dela.

Então no segundo dia aconteceu algo inesperado.  Enquanto Aninha estava ausente, o jornaleiro veio e jogou o jornal de madame na porta de entrada que estava aberta. Escondida debaixo de uma cadeira, Vicky resolveu que esta era a oportunidade de mostrar o que tinha aprendido . Abocanhando o jornal foi trotando, com rabinho abanando, em direção da poltrona onde  madame estava confortavelmente acomodada e lá o deixou.   A surpresa de  madame  foi  grande,  mas não fez  comentário sobre o ocorrido.

No final do terceiro dia.  Vendo que não podia se desfazer da Vicky,

Aninha , muito triste, começou a juntar as poucas roupas dentro da sacola.  Madame tinha sido bem clara, ‘rua para os dois’.!  … e ela ia para rua…

No quarto dia, de manhã cedo, ela vestiu sua roupa velha, deixou o uniforme em cima da cama,  pegou a sacola,  a cachorrinha e foi falar

com sua patroa.

 – “ Olha madame, eu vim me despedir.  Não consegui me desfazer da Vicky!   Acho que vou embora do jeito que  madame falou”.

Então,  madame olhou aquela garota magrinha com o olhar triste que estava diante dela segurando uma sacola velha e um cãozinho pintado.  Parou um instante, pôs a mão na cintura, e ficou pensativa. Aquele quadro  a deixou emocionada e pensou:  –“Não posso deixar esta menina ir embora assim,  é uma boa garota, trabalhadeira  e a cachorrinha.. é uma gracinha..”

Por um minuto o tempo parou… Finalmente  ouviu-se a voz de madame.

-“ Pensei melhor e decidi que você pode ficar com a tua cachorrinha, porém com uma condição: ela não pode mais  ficar no teu quarto, terá que ficar lá fora e você terá que cuidar disto!”

O rosto da menina se iluminou. Jogou a sacola no chão e perguntou sem acreditar no que ouvia 

 –“Posso mesmo ficar ?”   Madame sorriu e  fez sim com a cabeça. Aninha , num impulso de alegria pulou no pescoço de madame e a beijou e, Vicky  levantou as patas da frente, e soltou um latido diferente, algo como “muito obrigado…”.

Assim, Aninha permaneceu trabalhando naquela  casa . Madame começou a tratar Aninha de uma maneira diferente, como se fosse sua família.  Contratou outra pessoa  para fazer o serviço pesado e fez questão que Aninha voltasse a frequentar a escola.

Quando Aninha  voltava da escola , lá estava Vicky fazendo festa, pulando de alegria para o colo de Aninha.  Agora ela podia brincar com a cachorrinha sem temer madame.

O que ela não sabia,  é que madame também se afeiçoou a Vicky  que ela mesma levava passear na ausência de Aninha. 

Vicky trouxe muita alegria àquela casa!

Por coincidência, Aninha ficou sabendo que  madame  também era natural de João Pessoa e que o nome de ‘madame’ era Zuleide.

 

Com o tempo, Mingo e Vicky começaram a namorar e logo  Vicky tornou-se mamãe de uma linda ninhada  toda manchadinha.

 

…………………….

 

Miriam sorriu olhando  para as quatro camas. Os meninos tinham adormecido. 

Ela então levantou, fechou as cortinas, cobriu cada um, apagou a luz e saiu do quarto sem fazer barulho.

História de memória: Uma tarde no shopping

 

Sai de casa com o firme propósito de comprar um novo travesseiro numa das lojas do shopping.

Naturalmente, comprei… mas não um travesseiro  e sim uma calça nova e para combinar, um tênis novo …

De posse das minhas compras e orgulhosa dos meus pacotes, decidi descansar  e tomar um café na Kopenhagen.

Fazer compras cansa!!

Todas as mesinhas estavam ocupadas. Mas,  lá,  no cantinho direito do quadrado da loja,  avistei uma cadeira, aliás duas cadeiras livres.  A terceira estava ocupada por uma senhora  de aparência oriental tomando, o que devia ser um chocolate.  Ela olhou para mim, para os meus pacotes, sorriu e, com a mão, fez um sinal, dando a compreender  que eu podia me acomodar ao seu lado.

Me  ajeitei na mesa, ou melhor,  na cadeira com as minhas enormes sacolas sob os olhares da senhora  que olhava para mim e para as sacolas… para as sacolas e para mim.  De repente, perdeu a timidez oriental, sorriu e fez a observação   “- Senhora comprou muito né?”.  Fiquei surpresa com  o comentário vindo de uma pessoa  estranha .  Como resposta  apenas abanei a cabeça alegremente.

Meu café chegou.   Então teve inicio  a conversa sobre o tempo, sobre  o novo prefeito e  sobre a situação do Brasil.

Após esta introdução, a senhora japonesa, natural de Tokyo,  começou a contar.

Depois de completar os estudos no Japão, decidiu conhecer o mundo. Viajou por  dois anos, trabalhando como interprete em navios japoneses.   Isto graças ao domínio da língua inglesa.  Chegou no Brasil com 23 anos e foi logo para a comunidade japonesa situada perto de São Roque. Lá  dava aulas de japonês para os nascidos no Brasil.  Foi lá também que conheceu  um rapaz com quem se casou e teve filhos que hoje vivem no Japão. O marido faleceu e ela veio para São Paulo. Com tristeza relatou que após 40 anos de trabalho dedicado no hospital Nippon,  tinha sido dispensada inesperadamente de modo brusco e sem consideração  ou respeito. Isto ainda a estava magoando muito.

Voltando ao assunto: situação politica da sucessão presidencial, a senhora começou a me contar  com grande entusiasmo que, atualmente,  no Japão estavam acontecendo  eleições. Disse que  devido ao fuso horário, ela quase não dormia.  Ficava assistindo NHK  (rede de TV japonesa).

Ela queria inteirar-se de  tudo sobre as eleições.  Falou e explicou-me a respeito da monarquia e parlamentarismo. Me contou sobre o desejo de renuncia do atual imperador Hiroito por motivos de saúde e sobre a problemática  de um sucessor.  Também falou sobre Aiko, filha do imperador,  que não pode ser vista como sucessora.   -“ Isto porém deve mudar. “ explicou.

A cada nova descrição ela gesticulava muito com as suas mãos que me lembravam os  movimentos de uma gueixa.

Fiquei ali, sentada, olhando impressionada  este rosto,  outrora certamente bonito,  que hoje exibia os traços do tempo. Os olhos negros, pequenos e puxados acompanhavam as inúmeras expressões  desta face que se transformava  a cada nova palavra, seguindo a emoção dos relatos recordados

Eu ouvia com atenção e curiosidade a revelação desta riqueza de vivência e conhecimentos que esta mulher estava demostrando e transmitindo.

Tinham se passado quase duas horas do inicio da nossa conversa.

Olhei para  o relógio e levantei da cadeira. Já era tarde.  Foi neste instante que ela  também se levantou e se apresentou .

O nome dela é Kyoko e tem 85 anos.

Um encontro casual repleto de surpresas.

Visão vs Realidade

 

Na vida pode haver momentos de clareza inimagináveis.  Num clarão de segundos  ou milésimos de segundos podemos ter imagens sobre futuras paisagens da nossa vida. Normalmente  estes segundos parecem tão insignificantes que sequer os registramos.

Foi assim que aconteceu comigo.

Não saberia mais dizer quando e onde foi.  Apenas quero relatar o que vivenciei.

Uma imagem que nunca consegui entender, mas que hoje consigo traduzir:

Estou numa planície verde, enfeitada por pequenas margaridas e flores do campo onde o canto dos visitantes alados quebra o silêncio do vento.

Não muito distante ergue-se majestosamente uma montanha coberta de verde. De longe posso perceber uma trilha para se chegar ao topo ou passar para o outro lado.

Eu estou na planície, caminhando, segurando a mão de um menino moreno, lindo e sorridente,  encantado com a natureza.

De repente, no sopé da montanha, ele para, solta minha mão e começa a subir  a montanha .

Não quero permitir…  quero acompanhar… ir também…  mas…  ao invés, fico parada como uma estatua, sem entender o porque, sem conseguir seguir os seus passos.

Ele se afasta cada vez mais até sumir completamente da minha vista.   E eu estou só na encosta da montanha!

Hoje entendo esta visão.

O menino é meu filho, a minha estrelinha que hoje brilha no céu.  Ele largou a minha mão e subiu aquela montanha, para entrar numa paisagem desconhecida.

Compreendi que estou só e que terei que encontrar novos caminhos e fazer com que se  tornem a minha fonte, fonte esta que irei preencher com gestos de amor.  Só o amor pode suavizar a minha dor e só o amor me leva a crer que, não importa a perda que a vida impõe, é preciso continuar.

Histórias de memória: Oliveira, o taxista

Segunda-feira, 15.00 horas, tarde fria de outono.  O ponto de taxi está com seus carros brancos enfileirados enquanto os motoristas,  numa rodinha,  conversam alegremente. Com os corpos retesados pelo frio, eles esfregam as mãos  e dão pulinhos para se aquecer.  De vez enquanto um deles olha para trás na esperança de ver algum possível passageiro se aproximar.

De repente surge, não se sabe de onde, a figura de um coreano de estatura mediana.  Apressado, segurando uma grande mala de cor vinho  e com rodinhas,  ele corre na direção dos taxis gritando       :  -:”Quelo taxi .. muito plessa.. .”

Finalmente, é a ‘vez’ de Oliveira fazer a corrida, um rapaz alto, recém-casado, de uns 35 anos, moreno jambo, com covinha do lado esquerdo do rosto e um bigodinho muito bem aparado.

Seu apelido: Bigodin..

Bigodin se precipita para abrir a porta traseira direita do carro e o coreano joga  a mala no banco.

Ao chegar perto do semáforo, na esquina o taxista ouve gritos.  Ele olha pelo retrovisor, fica boquiaberto e vê o coreano gesticulando e correndo atrás do carro, gritando  -‘ladlão, lobo meu mala..”

Nesta mesma esquina uma viatura da policia de plantão está parada. Dentro estão dois policiais aguardando no sossego que algo de interessante aconteça.

Fazendo gestos desesperados e usando a mimica para se fazer entender, o coreano chega perto dos policiais,  aponta o taxi e, sem fôlego,  só consegue balbuciar : :-“Ladlão, oh, oh, ele com meu mala, lobo meu mala..”

Então um dos policiais o faz entrar no carro e assim tem inicio uma breve perseguição ao taxi, ao som de uma sirene inquisidora.

A viatura logo alcança o taxista que não estava entendo nada  e nem o motivo de tal rebuliço.  Bigodin  ficou  tão estupefato que nem soube responder às perguntas dos policiais.  –“Não, não, repito, não roubei mala nenhuma.  Pensei que o coreano estivesse atrás, sentado no banco. Não percebi que só estava a mala”.

O que aconteceu foi que, querendo ser super-prestativo e oferecer um bom serviço ao passageiro,  Bigodin  ajudou a abrir a porta do carro.  O coreano  jogou  a mala no banco e correu por trás do taxi para abrir a outra porta e entrar.   Porém o motorista já sentado ao volante não esperou, deu partida e saiu apenas com a mala e sem o coreano.  Não percebeu  o erro!

Rindo muito, os policiais acreditaram na versão do taxista assustado, que foi imediatamente liberado.

Um dos policiais entregou a mala ao coreano cujo comportamento estranho despertou a curiosidade dos homens da lei.

Pediram ao coreano que abrisse a mala para examinar o seu conteúdo.  Qual não foi a surpresa ao constatar  a existência de drogas, uma pistola e um rifle escondidos entre as roupas.

Consequentemente, o coreano foi escoltado até a delegacia onde foi atuado em flagrante e colocado atrás das grades.

Soube-se mais tarde que o individuo pertencia a uma quadrilha de contrabandistas procurados  na América do Sul.

A partir daquele dia,  Bigodin nunca mais esqueceu ninguém e antes de dar partida, passou a conferir a presença de cada passageiro, sentado no banco e com o cinto de segurança corretamente fechado.

Este episódio ele relembra rindo muito.

No ponto de taxi todos se divertem com esta história engraçada e a fama de Bigodin se espalhou pelos pontos de taxis de toda redondeza.

 

As quatro estações

No ano existem quatro estações e um momento em que elas se completam.

Se alguém desistir no INVERNO, perderá as promessas da PRIMAVERA, a beleza do VERÃO e as expectativas do OUTONO.

Não permita que a dor de uma estação destrua a alegria de todas as outras.

Não julgue a vida apenas por uma estação difícil.

Persista, pois através dos caminhos difíceis  melhores tempos certamente virão.

Eles virão de uma hora para outra!!