A Roqueira

Subi no ônibus que estava quase lotado.  Um assento livre!  Que bom! Sentei do lado da janela.  Então, ao meu lado, sentou-se uma senhora.  Trajava calça  jeans, blusa  estampada com pequenos botões amarelos e um  tênis bem surrado. Os  cabelos brancos deixavam transparecer um rosto bronzeado que já apresentava os sinais do tempo.  Olhou para mim, se ajeitou no banco, me empurrou para o lado, sorriu  e.. -“ Nossa como está abafado aqui dentro, né?!” Balancei a cabeça em sinal de sim.

O motorista deu partida e iniciou a sua trajetória.

Ela  continuou –“.. este tempo me faz sofrer. Estou com muita dor nas pernas, nas ancas..  Ah, como é mesmo que o médico disse que se chamava?.. Ah é, lombar isto mesmo, dores na parte da lombar.”  Ela suspirava  enquanto segurava um enorme envelope de laboratório e me empurrava ainda mais para janela.  –“ Estou indo ao médico. Eu já fui internada várias vezes, sabe. Por causa da  diverticulite.”   Eu queria dizer algo, mas ela estava tão empolgada  que não permitiu que eu falasse.   -” ..tenho artrose no joelho e ombro, problemas na cervical,  diabete,  pressão alta, reumatismo e colesterol.”  Eu queria dizer o quanto sentia por ela, mas não me deixou falar     –“ … acho  que isto é consequência da vida que levei quando jovem.”

O trânsito estava ruim; o ônibus agora estava parado.  .. Me deu mais uma empurrada.  Estava bem apertado no assento!  Então perguntou sorrindo

-“ Você gosta de Rock metaleiro?”    – “ Pois é,  eu adorava isto; ainda gosto muito. Nunca perdi um show.  Eu era do rock pesado. Saia com os amigos, mochila nas costas carregando barraca para uma só pessoa.  Pedia carona na estrada e dormia ao relento.  Claro que fugi de casa várias vezes. Mas no interior é fácil encontrar quem foge!  A primeira fuga foi aos 13 anos.  Me trouxeram de volta para casa!  Aos 16 fui de novo.  Desta vez fiquei longe de casa por um bom tempo. Foi na época do Paz Amor e Drogas.  Usei até argolinha no nariz e piercing na língua, eu fumava, cheirava e me drogava também. Como todos, né!”   -“Naquela época tudo era bem mais fácil do que hoje.  Imagine você,  quando vi que estava me tornando  dependente das drogas, decidi me tratar e fui, por iniciativa própria eu mesma procurar ajuda. Me internei,  me desintoxiquei e consegui me livrar das drogas.  Estou limpa há muitos anos, mas os efeitos daquela época surgem agora, aos 70 anos.  Estou pagando caro por tudo que fiz na juventude.  E, se quer saber ainda faço todo trabalho de casa. Passo, lavo, cozinho e mantenho a casa limpa.  Faço tudo!  Minha filha e meu neto, no entanto não fazem nada.“  Ela tirou uma carteira do bolso e me mostro a foto da filha e do neto.  –“Ela sofre de uma doença muito grave.  O que ela tem é preguiça’!”.

O ônibus  estava chegando ao seu destino.  Parou.   Os passageiros desciam um a um . A senhora  virou-se,  olhou para mim com um grande sorriso e disse   –“Ah, foi um prazer conversar com você, agora vou pegar o metrô.”  Levantou-se e lentamente  desceu os degraus do ônibus.”

 

 

Marie Claire

 

Setembro/2014

 

 

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