Histórias de memória: A apresentação

danceA turma de Santo Amaro era muito animada.  Todos gostavam muito de dançar, inclusive eu!. O “bailinho rodizio” dos sábados, realizado a cada final de semana na casa de outra pessoa, era ansiosamente aguardado por todos.  Os integrantes desta turma eram filhos de franceses, ingleses, alemães e húngaros. Mas a língua “união” era o português!

Foi numa destas festinhas que conheci Antônio Carlos. Ele era um paulistano de família ‘quatrocentão’.  Tal como eu, e os outros da turma, ele era fã de Bill Haley, Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Richie Valens e outros daquela época.. Era um ótimo dançarino e logo se tornou meu par.

A gente  se divertia muito.

Em 1957 eu morava num sobrado, na rua Artur de Azevedo em Pinheiros. Uma rua muito tranquila, estreita. Não havia movimento; só um carro estacionado, o do meu pai.  Há poucos metros de lá, estava um pequeno rio e uma ponte de cinco metros de comprimento que fazia a alegria de algumas pessoas que, nos dias quentes, ficavam pescando. Mas nunca vi peixes!

Uma São Paulo saudosa!

Minha mãe era modista e a casa estava sempre repleta de “freguesas”.  É assim que eram chamadas as ‘clientes’ de hoje.

Nas terças e quintas, na parte da manhã,  Antônio Carlos vinha para treinar as novas coreografias que iriamos apresentar nos bailinhos.  Como não tinha lugar dentro de casa, o treino era na rua mesmo, ao som de uma velha vitrola.  E dava tudo certo, pois não havia problema de trânsito.  O nosso publico eram os vizinhos velhos que não saiam de casa e que ficavam na janela apreciando. Eles adoravam !

Antônio Carlos trabalhava apenas meio dia; era bancário!

Por serem muito bons, a fama dos integrantes da turma de Santo Amaro se espalhou rapidamente. Na época, nós, os dançarinos, erámos considerados revolucionários por acompanhar o ritmo do rock’roll.

Em 1958  Bill Haley & Comets  vieram se apresentar em São Paulo no Teatro Paramount (hoje Teatro Renaud).  Foi então que a turma de Santo Amaro foi convidada  a fazer um teste para dançar durante a apresentação de Bill Haley.

Entusiasmo geral!

Eu fiquei muito feliz.   Meu pai, porém, não dividia a minha opinião. Aparecer  num palco, para ele não era coisa boa!  Mas tanto implorei que obtive sua permissão !

O primeiro passo  foi  fazer o teste de  seleção. Eu e Antônio Carlos estávamos  entre os quatro casais escolhidos. O dia da audição era aguardado por todos com enorme ansiedade. Finalmente chegou o dia.

Na coxia, eu esperava ser chamada; estava muito nervosa e o ‘frio na barriga’  só aumentava.  Antônio Carlos tentava me acalmar.  Chamaram o nosso nome.

Entrei no palco.  A música tocou. Mas então aconteceu… Fiquei  gelada, pregada ao chão e não conseguia sair do lugar. Meu parceiro, tentando me acordar desta letargia, me deu uma beliscada bem forte!  Doeu; mas nem assim.!   Não conseguia  me mexer direito..  Ao invés de ir para direita eu ia para frente e não conseguia  ir para esquerda..   Apesar de estar com o corpo duro, consegui dar um passo..  em falso, escorregar e machucar meu tornozelo.  O saiote de tule branco, não sei como,  se soltou da minha saia  prendeu a minha perna e me fez tropeçar . Sem querer, cai de mau jeito na direção dos braços de Antônio Carlos que, numa reação relâmpago, se afastou e  deixou que meu corpo caísse num verdadeiro estalo no solo do palco.

A música parou. Os outros participantes me olhavam atônitos. Tudo foi tão rápido.  Olhei para os jurados na primeira fileira e vi que alguns balançavam a cabeça rindo do espetáculo tragicômico enquanto outros só abaixavam a cabeça.

Desejei que o chão se abrisse para poder sumir, desaparecer, me tornar invisível!  Nem sei se senti a dor do tombo!  A vergonha e todos os olhares fixos em minha pessoa…  Não havia outro jeito, reagi .. peguei  minha coragem nas duas mãos   e, sem mesmo respirar direito, desapareci na coxia.   Minha trança se soltou, meu cabelo ficou espalhado no rosto!  Vi um dos meus sapatos caído na minha frente!

O mundo desabou!!!

Errei os passos e o teste  foi simplesmente  um fiasco!  Naturalmente não me escolheram   e nem ao Antônio Carlos que  ficou  furioso comigo.  Fomos reprovados, eliminados!

Eu estava muito triste, envergonhada, com raiva de mim mesma. Que decepção.  Antônio Carlos foi claro –“Você deu um show, mas um show de vergonha. .. é uma vergonha! “ –“…Não, não diga nada.. Tô indo..”  E, me largou assim, no meio da rua.

Eu tinha apenas 16 anos e um erro deste na minha vida de super-, hiper,-e  mega  fã  de Bill Haley  era inaceitável !

Na minha cabeça de 16 anos a vida não tinha mais sentido ! Não via como conseguir outra oportunidade.  Eu estava completamente desesperada isto significava a exclusão total do grupo.

Neste dia, meus pais haviam ido ao cinema perto do teatro e meu pai tinha deixado o carro num estacionamento que eu conhecia.

Saí da audição um trapo! Chorava muito.  Não queria ir para casa! Antônio Carlos se tinha evaporado.

Pensei, pensei muito; decidi ir até o estacionamento e soluçando, sentei no estribo do carro. Lá fiquei  aguardando meus pais, o rosto inchado de tanto chorar.  Finalmente, chegaram e após ouvir a minha tragédia,  riram da minha desgraça!

Eu estava inconsolável.

Faltavam 6 dias para  a Estreia!  Eu não queria comer e chorava o tempo todo. Não sabia o que fazer e não tinha notícias de Antônio Carlos!

Meu pai tinha um amigo americano, estabelecido no Brasil havia pouco tempo, que era empresário de artistas. Um dia ele veio jantar em casa.

Me conhecia há muito tempo, pois meu pai e ele tinham estado juntos durante a guerra. Quando me viu não me reconheceu.  Diante dele estava uma garotinha de 16 anos e meio, de tranças com os olhos vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar. Meu pai contou a ele a minha ‘desgraça’.   Ele só sorriu,  me deu um tapinha nas costas e voltei para o meu quarto tão infeliz quanto antes.

Até hoje não sei se foi graças a sua intervenção …ou não.

Dois dias depois, recebi o telefonema de um dos organizadores do show Bill Haley&Comets. Queria conversar comigo no lobby do Hotel Jaraguá. No dia e hora marcada fui encontrar a pessoa.  A surpresa foi grande, queria contratar um casal substituto para estreia. A pessoa se lembrava de mim e da minha desastrosa apresentação e, apesar disto, queria  me dar uma chance.  Fiquei muito emocionada e só tive palavras de agradecimento.

Agora o problema era outro: encontrar Antônio Carlos, que não queria me ver, “nem pintada”.  Telefonei para todos os amigos e 48 horas depois consegui Foram várias horas de explicações até conseguir convencê-lo.

Fizemos um novo teste. Ufa, deu tudo certo.

Finalmente estávamos prontos.!

E chegou o dia da  estreia .

No entanto, nós erámos apenas o casal substituto na coxia!  Talvez nem fossemos  entrar no palco.  Mas, pelo menos a gente estava lá.

Durante o intervalo, aconteceu algo inexplicável. A parceira de um dos rapazes começou a  se queixar de fortes dores no lado direito do abdômen e não conseguia ficar em pé.

O intervalo terminou e recebemos uma chamada urgente para substituir o casal.  De repente, Antônio Carlos me segurou pela mão e me  arrastou para o palco. Ele estava radiante!

Foi emocionante!

Dançar rock’n roll ao som de Bill Haley e seus Comets foi algo fantástico, inesquecível! As palmas foram muitas.

Conheci toda banda pessoalmente, conversei com cada um deles e até hoje guardo com todo carinho, no meu livrinho de recordações,  a foto  um pouco amarelada,  com os autógrafos de Bill Haley e seus Comets.

Uma consideração sobre “Histórias de memória: A apresentação”

  1. A Marie Claire é daquelas pessoas que esbanjam cultura e simpatia e é muito bom ter a honra de tê-la como amiga, pois ela engrandece sua vida com seu brilho ímpar.

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