História de memória: Uma tarde no shopping

 

Sai de casa com o firme propósito de comprar um novo travesseiro numa das lojas do shopping.

Naturalmente, comprei… mas não um travesseiro  e sim uma calça nova e para combinar, um tênis novo …

De posse das minhas compras e orgulhosa dos meus pacotes, decidi descansar  e tomar um café na Kopenhagen.

Fazer compras cansa!!

Todas as mesinhas estavam ocupadas. Mas,  lá,  no cantinho direito do quadrado da loja,  avistei uma cadeira, aliás duas cadeiras livres.  A terceira estava ocupada por uma senhora  de aparência oriental tomando, o que devia ser um chocolate.  Ela olhou para mim, para os meus pacotes, sorriu e, com a mão, fez um sinal, dando a compreender  que eu podia me acomodar ao seu lado.

Me  ajeitei na mesa, ou melhor,  na cadeira com as minhas enormes sacolas sob os olhares da senhora  que olhava para mim e para as sacolas… para as sacolas e para mim.  De repente, perdeu a timidez oriental, sorriu e fez a observação   “- Senhora comprou muito né?”.  Fiquei surpresa com  o comentário vindo de uma pessoa  estranha .  Como resposta  apenas abanei a cabeça alegremente.

Meu café chegou.   Então teve inicio  a conversa sobre o tempo, sobre  o novo prefeito e  sobre a situação do Brasil.

Após esta introdução, a senhora japonesa, natural de Tokyo,  começou a contar.

Depois de completar os estudos no Japão, decidiu conhecer o mundo. Viajou por  dois anos, trabalhando como interprete em navios japoneses.   Isto graças ao domínio da língua inglesa.  Chegou no Brasil com 23 anos e foi logo para a comunidade japonesa situada perto de São Roque. Lá  dava aulas de japonês para os nascidos no Brasil.  Foi lá também que conheceu  um rapaz com quem se casou e teve filhos que hoje vivem no Japão. O marido faleceu e ela veio para São Paulo. Com tristeza relatou que após 40 anos de trabalho dedicado no hospital Nippon,  tinha sido dispensada inesperadamente de modo brusco e sem consideração  ou respeito. Isto ainda a estava magoando muito.

Voltando ao assunto: situação politica da sucessão presidencial, a senhora começou a me contar  com grande entusiasmo que, atualmente,  no Japão estavam acontecendo  eleições. Disse que  devido ao fuso horário, ela quase não dormia.  Ficava assistindo NHK  (rede de TV japonesa).

Ela queria inteirar-se de  tudo sobre as eleições.  Falou e explicou-me a respeito da monarquia e parlamentarismo. Me contou sobre o desejo de renuncia do atual imperador Hiroito por motivos de saúde e sobre a problemática  de um sucessor.  Também falou sobre Aiko, filha do imperador,  que não pode ser vista como sucessora.   -“ Isto porém deve mudar. “ explicou.

A cada nova descrição ela gesticulava muito com as suas mãos que me lembravam os  movimentos de uma gueixa.

Fiquei ali, sentada, olhando impressionada  este rosto,  outrora certamente bonito,  que hoje exibia os traços do tempo. Os olhos negros, pequenos e puxados acompanhavam as inúmeras expressões  desta face que se transformava  a cada nova palavra, seguindo a emoção dos relatos recordados

Eu ouvia com atenção e curiosidade a revelação desta riqueza de vivência e conhecimentos que esta mulher estava demostrando e transmitindo.

Tinham se passado quase duas horas do inicio da nossa conversa.

Olhei para  o relógio e levantei da cadeira. Já era tarde.  Foi neste instante que ela  também se levantou e se apresentou .

O nome dela é Kyoko e tem 85 anos.

Um encontro casual repleto de surpresas.

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