O pequeno comerciante

Rafa estudava na  sexta série.  Era um aluno bastante aplicado que tinha muitos amigos.

Todos o  chamavam de comerciante.

Sabem por quê?

Ele sempre descobria alguma coisa para ganhar dinheiro. Certo dia, quando a  estação das nêsperas  estava no auge, ele teve uma brilhante ideia.

-É preciso explicar que as sementes de nêspera faziam o papel de bolinhas de gude e a meninada adorava.-

Então, preparou cem saquinhos pequeninos, colocou dentro de cada um quinze sementes de nêspera  e amarrou com uma fita amarela.   No recreio, vendeu os saquinhos por vinte centavos cada.

Fazendo a conta, cem vezes vinte centavos dá  vinte reais.  Assim, ele ganhava essa quantia pelas sementes que não lhe tinham custado absolutamente nada!

E este era somente um exemplo dos empreendimentos.  Ele sempre pensava em alguma outra boa ideia que logo colocava em prática.

No inicio daquele ano Rafa teve uma ideia espetacular!  Pegou a sua caixinha de economias de onde tirou uma quantia e foi comprar dez cartões sortidos com mensagens bonitas de Natal.  Depois foi a um lugar onde tinha uma máquina de xerox  e fez oito cópias de cada cartão.  Ficou com oitenta cartões novos – e mais os dez originais.  Em seguida, colou os cartões sobre uma cartolina grande e dividiu-a em dez cartelas menores, cada uma com oito cartões diferentes e tirou  xerox  destas cartelas.

No dia seguinte Rafa chegou  na escola com a sua “mercadoria”  e colocou um aviso: “Venda de cartões de Natal na sexta série”.  Isto provocou um tumulto entre os alunos.  Todas as cartelas foram vendidas no primeiro dia!

Naquela escola havia um grande número de alunos.  Muitos decidiram que valia a pena pagar um real por oito cartões “fabricados” por ele em vez de dois reais por um só cartão original.

Alguns alunos até compraram várias cartelas.

Rafa voltou para casa com trezentos reais no bolso!  Cada transação significava um lucro excelente.

No dia seguinte ele xerocou o dobro.  Essa quantidade também desapareceu e naquele dia ele voltou para casa com mais seiscentos reais.  Ao ver a sua caixinha de economia sentiu que estava muito rico, pois já havia quase setecentos reais.

Assim, passaram os dias.  A cada dia Rafa vendia mais cartões. A notícia se espalhou e crianças de outras escolas também quiseram comprar as cartelas e ele lucrava e lucrava!

Mas lucrava dinheiro e negligenciava os estudos.

Em todas as aulas Rafa ficava sonhando e calculando quantas cópias fazer, quanto lucraria com elas e quanto precisaria para fazer mais cópias.  De vez em quanto o professor chamava a sua atenção, mas ele estava totalmente envolvido nos negócios e em longas colunas de números.

Em um dos intervalos, no auge da ”venda”, quando muitas crianças lotavam a classe, o professor apareceu de repente.

Os garotos ficaram sem jeito e foram escapando para fora.  Em poucos segundos Rafa ficou a sós com o professor.

-“Agora estou entendo a sua decaída nos estudos“ disse o professor.  -Sua cabeça está nos “negócios”, e por isso você não consegue estudar!

Ele então pegou uma cartela de cartões, observou-a longamente. Rafa  percebeu que seu rosto estava ficando cada vez mais severo.  Suas sobrancelhas se levantaram e ele se dirigiu a Rafa com a voz aguda.

-“Diga-me..  Você pediu permissão para copiar estes cartões?

-“De quem eu preciso pedir permissão?” perguntou Rafa.

– De quem  produz os cartões, claro¹”  respondeu o professor.  -“Ele investe grandes quantias de dinheiro na produção.  Você compra um cartão, faz centenas de cópias e, em vez de pagarem para ele pagam para você. Isto lhe parece direito?

Rafa ficou espantado    “Como é que não tinha pensado  nisto antes?”, e ponderou com seus botões  “Se eu não tivesse feito cópias dos cartões, muitas crianças os teriam comprado na loja, e a pessoa que os imprimiu é que lucraria.  E eu roubei dela!”.

– “O que farei agora?”   Perguntou ao professor ao perceber o seu erro.

-“Eu  acho que você deve devolver o dinheiro àquele a quem roubou” – disse o professor.

Então na saída da escola Rafa se dirigiu à loja e pediu ao vendedor o endereço do produtor dos cartões. O vendedor olhou para ele com assombro e desconfiança, mas no fim deu o número de telefone.

Rafa foi para casa e, com a mão tremula, telefonou para o fabricante.

Uma voz adulta atendeu. Ele se apresentou.  Pela  voz dava para perceber que a pessoa  do outro lado da linha não estava entendo por que uma criança estava ligando para ele.  Rafa, então com a voz meio que trêmula explicou o motivo do telefonema.  O homem prestou atenção, de vez em quando interrompia com perguntas curtas e objetivas e, por sua vez estava muito surpreso.

Depois de terminar, o homem pediu o numero de telefone do menino  e disse que ligaria mais tarde.

De noite o telefone tocou.  O pai de Rafa atendeu.

-“Sim, aqui é o pai dele“.  Depois calou-se   e ouviu a história do homem.  Seu rosto ficava mais sério a cada instante.  Ele estava muito bravo.

A conversa terminou com pedido de desculpas por parte do pai que aceitou alguma ideia que o homem deve ter sugerido.

Depois, o pai  colocou o telefone no gancho, virou-se para Rafa e disse

-“Agora entendo a sua decadência nos estudos!”

O menino  começou a chorar e o pai esperou até ele se acalmar e depois disse  -“O fato de você ter ligado para o produtor prova que certamente está arrependido pelo que fez, e que agiu sem saber. Entendo que você goste de ser “comerciante”, mas você também sabe que há coisas mais  importantes do que isto.  Para minha tristeza vejo que você não pensou naquilo que tantas vezes eu te expliquei. Quanto a grande quantia de dinheiro que você lucrou, o homem me disse que ele perdoa de bom grado.  Mas ele impôs uma condição para isso: a metade do dinheiro deve ser doado  para os pobres e a outra metade deve ser guardada no banco até o seu casamento.  Você só terá direito de usá-la se for muito esforçado e se tornar um ótimo aluno..

O pai contou a Rafa o que o homem tinha dito  -“ Se ele usar a cabeça que tem para os estudos, esse dinheiro será um presente para o dia do seu casamento.  Caso contrário, o dinheiro voltará para mim.”

E é claro que Rafa  concordou.

Por causa desta história, no dia seguinte,  o diretor da escola entrou em todas as classes e avisou que daquele dia em diante, ele não permitiria mais que fossem feitos “negócios” dentro dos limites da escola.

Nem todas as crianças entenderam e Rafa , então, foi contar para eles que “negócios” são assuntos de adultos.  Isso desvia a atenção das crianças dos estudos e que isso pode fazê-los tropeçar, assim como tinha acontecido com ele.

Foi assim que Rafa passou a se dedicar aos estudos ano após ano.

Esta história o acompanhou até o dia em que se formou sob o olhar orgulhoso do pai.

 

 

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