Visão vs Realidade

 

Na vida pode haver momentos de clareza inimagináveis.  Num clarão de segundos  ou milésimos de segundos podemos ter imagens sobre futuras paisagens da nossa vida. Normalmente  estes segundos parecem tão insignificantes que sequer os registramos.

Foi assim que aconteceu comigo.

Não saberia mais dizer quando e onde foi.  Apenas quero relatar o que vivenciei.

Uma imagem que nunca consegui entender, mas que hoje consigo traduzir:

Estou numa planície verde, enfeitada por pequenas margaridas e flores do campo onde o canto dos visitantes alados quebra o silêncio do vento.

Não muito distante ergue-se majestosamente uma montanha coberta de verde. De longe posso perceber uma trilha para se chegar ao topo ou passar para o outro lado.

Eu estou na planície, caminhando, segurando a mão de um menino moreno, lindo e sorridente,  encantado com a natureza.

De repente, no sopé da montanha, ele para, solta minha mão e começa a subir  a montanha .

Não quero permitir…  quero acompanhar… ir também…  mas…  ao invés, fico parada como uma estatua, sem entender o porque, sem conseguir seguir os seus passos.

Ele se afasta cada vez mais até sumir completamente da minha vista.   E eu estou só na encosta da montanha!

Hoje entendo esta visão.

O menino é meu filho, a minha estrelinha que hoje brilha no céu.  Ele largou a minha mão e subiu aquela montanha, para entrar numa paisagem desconhecida.

Compreendi que estou só e que terei que encontrar novos caminhos e fazer com que se  tornem a minha fonte, fonte esta que irei preencher com gestos de amor.  Só o amor pode suavizar a minha dor e só o amor me leva a crer que, não importa a perda que a vida impõe, é preciso continuar.

Histórias de memória: Oliveira, o taxista

Segunda-feira, 15.00 horas, tarde fria de outono.  O ponto de taxi está com seus carros brancos enfileirados enquanto os motoristas,  numa rodinha,  conversam alegremente. Com os corpos retesados pelo frio, eles esfregam as mãos  e dão pulinhos para se aquecer.  De vez enquanto um deles olha para trás na esperança de ver algum possível passageiro se aproximar.

De repente surge, não se sabe de onde, a figura de um coreano de estatura mediana.  Apressado, segurando uma grande mala de cor vinho  e com rodinhas,  ele corre na direção dos taxis gritando       :  -:”Quelo taxi .. muito plessa.. .”

Finalmente, é a ‘vez’ de Oliveira fazer a corrida, um rapaz alto, recém-casado, de uns 35 anos, moreno jambo, com covinha do lado esquerdo do rosto e um bigodinho muito bem aparado.

Seu apelido: Bigodin..

Bigodin se precipita para abrir a porta traseira direita do carro e o coreano joga  a mala no banco.

Ao chegar perto do semáforo, na esquina o taxista ouve gritos.  Ele olha pelo retrovisor, fica boquiaberto e vê o coreano gesticulando e correndo atrás do carro, gritando  -‘ladlão, lobo meu mala..”

Nesta mesma esquina uma viatura da policia de plantão está parada. Dentro estão dois policiais aguardando no sossego que algo de interessante aconteça.

Fazendo gestos desesperados e usando a mimica para se fazer entender, o coreano chega perto dos policiais,  aponta o taxi e, sem fôlego,  só consegue balbuciar : :-“Ladlão, oh, oh, ele com meu mala, lobo meu mala..”

Então um dos policiais o faz entrar no carro e assim tem inicio uma breve perseguição ao taxi, ao som de uma sirene inquisidora.

A viatura logo alcança o taxista que não estava entendo nada  e nem o motivo de tal rebuliço.  Bigodin  ficou  tão estupefato que nem soube responder às perguntas dos policiais.  –“Não, não, repito, não roubei mala nenhuma.  Pensei que o coreano estivesse atrás, sentado no banco. Não percebi que só estava a mala”.

O que aconteceu foi que, querendo ser super-prestativo e oferecer um bom serviço ao passageiro,  Bigodin  ajudou a abrir a porta do carro.  O coreano  jogou  a mala no banco e correu por trás do taxi para abrir a outra porta e entrar.   Porém o motorista já sentado ao volante não esperou, deu partida e saiu apenas com a mala e sem o coreano.  Não percebeu  o erro!

Rindo muito, os policiais acreditaram na versão do taxista assustado, que foi imediatamente liberado.

Um dos policiais entregou a mala ao coreano cujo comportamento estranho despertou a curiosidade dos homens da lei.

Pediram ao coreano que abrisse a mala para examinar o seu conteúdo.  Qual não foi a surpresa ao constatar  a existência de drogas, uma pistola e um rifle escondidos entre as roupas.

Consequentemente, o coreano foi escoltado até a delegacia onde foi atuado em flagrante e colocado atrás das grades.

Soube-se mais tarde que o individuo pertencia a uma quadrilha de contrabandistas procurados  na América do Sul.

A partir daquele dia,  Bigodin nunca mais esqueceu ninguém e antes de dar partida, passou a conferir a presença de cada passageiro, sentado no banco e com o cinto de segurança corretamente fechado.

Este episódio ele relembra rindo muito.

No ponto de taxi todos se divertem com esta história engraçada e a fama de Bigodin se espalhou pelos pontos de taxis de toda redondeza.

 

As quatro estações

No ano existem quatro estações e um momento em que elas se completam.

Se alguém desistir no INVERNO, perderá as promessas da PRIMAVERA, a beleza do VERÃO e as expectativas do OUTONO.

Não permita que a dor de uma estação destrua a alegria de todas as outras.

Não julgue a vida apenas por uma estação difícil.

Persista, pois através dos caminhos difíceis  melhores tempos certamente virão.

Eles virão de uma hora para outra!!

Histórias de memória: A apresentação

danceA turma de Santo Amaro era muito animada.  Todos gostavam muito de dançar, inclusive eu!. O “bailinho rodizio” dos sábados, realizado a cada final de semana na casa de outra pessoa, era ansiosamente aguardado por todos.  Os integrantes desta turma eram filhos de franceses, ingleses, alemães e húngaros. Mas a língua “união” era o português!

Foi numa destas festinhas que conheci Antônio Carlos. Ele era um paulistano de família ‘quatrocentão’.  Tal como eu, e os outros da turma, ele era fã de Bill Haley, Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Richie Valens e outros daquela época.. Era um ótimo dançarino e logo se tornou meu par.

A gente  se divertia muito.

Em 1957 eu morava num sobrado, na rua Artur de Azevedo em Pinheiros. Uma rua muito tranquila, estreita. Não havia movimento; só um carro estacionado, o do meu pai.  Há poucos metros de lá, estava um pequeno rio e uma ponte de cinco metros de comprimento que fazia a alegria de algumas pessoas que, nos dias quentes, ficavam pescando. Mas nunca vi peixes!

Uma São Paulo saudosa!

Minha mãe era modista e a casa estava sempre repleta de “freguesas”.  É assim que eram chamadas as ‘clientes’ de hoje.

Nas terças e quintas, na parte da manhã,  Antônio Carlos vinha para treinar as novas coreografias que iriamos apresentar nos bailinhos.  Como não tinha lugar dentro de casa, o treino era na rua mesmo, ao som de uma velha vitrola.  E dava tudo certo, pois não havia problema de trânsito.  O nosso publico eram os vizinhos velhos que não saiam de casa e que ficavam na janela apreciando. Eles adoravam !

Antônio Carlos trabalhava apenas meio dia; era bancário!

Por serem muito bons, a fama dos integrantes da turma de Santo Amaro se espalhou rapidamente. Na época, nós, os dançarinos, erámos considerados revolucionários por acompanhar o ritmo do rock’roll.

Em 1958  Bill Haley & Comets  vieram se apresentar em São Paulo no Teatro Paramount (hoje Teatro Renaud).  Foi então que a turma de Santo Amaro foi convidada  a fazer um teste para dançar durante a apresentação de Bill Haley.

Entusiasmo geral!

Eu fiquei muito feliz.   Meu pai, porém, não dividia a minha opinião. Aparecer  num palco, para ele não era coisa boa!  Mas tanto implorei que obtive sua permissão !

O primeiro passo  foi  fazer o teste de  seleção. Eu e Antônio Carlos estávamos  entre os quatro casais escolhidos. O dia da audição era aguardado por todos com enorme ansiedade. Finalmente chegou o dia.

Na coxia, eu esperava ser chamada; estava muito nervosa e o ‘frio na barriga’  só aumentava.  Antônio Carlos tentava me acalmar.  Chamaram o nosso nome.

Entrei no palco.  A música tocou. Mas então aconteceu… Fiquei  gelada, pregada ao chão e não conseguia sair do lugar. Meu parceiro, tentando me acordar desta letargia, me deu uma beliscada bem forte!  Doeu; mas nem assim.!   Não conseguia  me mexer direito..  Ao invés de ir para direita eu ia para frente e não conseguia  ir para esquerda..   Apesar de estar com o corpo duro, consegui dar um passo..  em falso, escorregar e machucar meu tornozelo.  O saiote de tule branco, não sei como,  se soltou da minha saia  prendeu a minha perna e me fez tropeçar . Sem querer, cai de mau jeito na direção dos braços de Antônio Carlos que, numa reação relâmpago, se afastou e  deixou que meu corpo caísse num verdadeiro estalo no solo do palco.

A música parou. Os outros participantes me olhavam atônitos. Tudo foi tão rápido.  Olhei para os jurados na primeira fileira e vi que alguns balançavam a cabeça rindo do espetáculo tragicômico enquanto outros só abaixavam a cabeça.

Desejei que o chão se abrisse para poder sumir, desaparecer, me tornar invisível!  Nem sei se senti a dor do tombo!  A vergonha e todos os olhares fixos em minha pessoa…  Não havia outro jeito, reagi .. peguei  minha coragem nas duas mãos   e, sem mesmo respirar direito, desapareci na coxia.   Minha trança se soltou, meu cabelo ficou espalhado no rosto!  Vi um dos meus sapatos caído na minha frente!

O mundo desabou!!!

Errei os passos e o teste  foi simplesmente  um fiasco!  Naturalmente não me escolheram   e nem ao Antônio Carlos que  ficou  furioso comigo.  Fomos reprovados, eliminados!

Eu estava muito triste, envergonhada, com raiva de mim mesma. Que decepção.  Antônio Carlos foi claro –“Você deu um show, mas um show de vergonha. .. é uma vergonha! “ –“…Não, não diga nada.. Tô indo..”  E, me largou assim, no meio da rua.

Eu tinha apenas 16 anos e um erro deste na minha vida de super-, hiper,-e  mega  fã  de Bill Haley  era inaceitável !

Na minha cabeça de 16 anos a vida não tinha mais sentido ! Não via como conseguir outra oportunidade.  Eu estava completamente desesperada isto significava a exclusão total do grupo.

Neste dia, meus pais haviam ido ao cinema perto do teatro e meu pai tinha deixado o carro num estacionamento que eu conhecia.

Saí da audição um trapo! Chorava muito.  Não queria ir para casa! Antônio Carlos se tinha evaporado.

Pensei, pensei muito; decidi ir até o estacionamento e soluçando, sentei no estribo do carro. Lá fiquei  aguardando meus pais, o rosto inchado de tanto chorar.  Finalmente, chegaram e após ouvir a minha tragédia,  riram da minha desgraça!

Eu estava inconsolável.

Faltavam 6 dias para  a Estreia!  Eu não queria comer e chorava o tempo todo. Não sabia o que fazer e não tinha notícias de Antônio Carlos!

Meu pai tinha um amigo americano, estabelecido no Brasil havia pouco tempo, que era empresário de artistas. Um dia ele veio jantar em casa.

Me conhecia há muito tempo, pois meu pai e ele tinham estado juntos durante a guerra. Quando me viu não me reconheceu.  Diante dele estava uma garotinha de 16 anos e meio, de tranças com os olhos vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar. Meu pai contou a ele a minha ‘desgraça’.   Ele só sorriu,  me deu um tapinha nas costas e voltei para o meu quarto tão infeliz quanto antes.

Até hoje não sei se foi graças a sua intervenção …ou não.

Dois dias depois, recebi o telefonema de um dos organizadores do show Bill Haley&Comets. Queria conversar comigo no lobby do Hotel Jaraguá. No dia e hora marcada fui encontrar a pessoa.  A surpresa foi grande, queria contratar um casal substituto para estreia. A pessoa se lembrava de mim e da minha desastrosa apresentação e, apesar disto, queria  me dar uma chance.  Fiquei muito emocionada e só tive palavras de agradecimento.

Agora o problema era outro: encontrar Antônio Carlos, que não queria me ver, “nem pintada”.  Telefonei para todos os amigos e 48 horas depois consegui Foram várias horas de explicações até conseguir convencê-lo.

Fizemos um novo teste. Ufa, deu tudo certo.

Finalmente estávamos prontos.!

E chegou o dia da  estreia .

No entanto, nós erámos apenas o casal substituto na coxia!  Talvez nem fossemos  entrar no palco.  Mas, pelo menos a gente estava lá.

Durante o intervalo, aconteceu algo inexplicável. A parceira de um dos rapazes começou a  se queixar de fortes dores no lado direito do abdômen e não conseguia ficar em pé.

O intervalo terminou e recebemos uma chamada urgente para substituir o casal.  De repente, Antônio Carlos me segurou pela mão e me  arrastou para o palco. Ele estava radiante!

Foi emocionante!

Dançar rock’n roll ao som de Bill Haley e seus Comets foi algo fantástico, inesquecível! As palmas foram muitas.

Conheci toda banda pessoalmente, conversei com cada um deles e até hoje guardo com todo carinho, no meu livrinho de recordações,  a foto  um pouco amarelada,  com os autógrafos de Bill Haley e seus Comets.

Histórias de Memória: O Pedido

sim

O que vou contar aconteceu em 1949, uma época em que  a  ‘turma do Cambuci’, formada por moças e rapazes,  se reunia uma vez por semana  para ir dançar ou ir ao cinema.  Era um grupo de jovens cujos pais, fugindo das atrocidades da guerra, se tinham refugiado no Brasil

Isaac e Simão, que eram amigos inseparáveis também faziam parte da turma.  Às quartas-feiras, como era costume, as moças iam ao cinema  na “Soirée das Moças” .

Havia muita amizade entre o grupo.

Isaac era ótimo dançarino e eu era seu par constante nos bailinhos. A gente se entendia muito bem e sempre que podíamos ficávamos horas e horas conversando.  Foi através destas longas conversas que comecei a conhecer melhor o Isaac.  Tinha 24 anos e era filho mais velho de pais poloneses.  Moreno alto, magro, com cabelos castanhos e cacheados,  tinha um coração de ouro e estava sempre pronto a ajudar quem precisasse. Rapaz  inteligente, divertido e carinhoso.  Foi assim que após meses de convivência, nossa amizade tornou-se namoro.  Mas, Isaac também tinha um sentimento sionista que me incomodava um pouco,  pois ficava muito tempo longe de mim. Ele estava terminando a sua formação de monitor num movimento juvenil judaico sionista que havia perto de Valinhos,  o “Achshara”.  Isto iria permitir a ele a experiência de  conviver um ano em Israel.

Numa destas “Soirée das Moças”,  quando eu estava assistindo um filme com a minha prima, Simão entrou no meio da sessão para se infiltrar na mesma fileira onde eu estava.  Sentou-se ao meu lado e cochichou  no meu ouvido  : -” Por favor venha comigo; há uma pessoa que quer lhe falar lá fora”.

Na calçada estava o Isaac nervoso andando pra lá e pra cá.  Ao  me ver,  sem aguardar minha pergunta e sem tomar folego disse   –”Olha, estou terminando “Achshara”  em Valinhos, logo viajarei para Israel e quero que você venha comigo.  A gente vai,  fica  junto e depois de chegarmos,  lá eu me caso com você, aceita?!”.  Fiquei atônita!

A verdade é que sempre esperei um dia ouvir alguém fazer o pedido, mas de uma maneira mais romântica!   Pedido de casamento feito desta forma, sem “pompas e circunstâncias” …Só podia ser brincadeira!

Como levar a sério alguém que faz um pedido tão sério de maneira tão leviana.  Tamanha foi a surpresa que não consegui pensar direito e nem responder!

Contei o ocorrido para meus pais.

Ficaram decepcionados.  –“Isaac é um bom rapaz, mas um rapaz de boa família deve falar com os pais da moça quando se trata de casamento”.   – “Ainda mais se tratando da minha única filha!”.  Foi o que disse meu pai.

Durante os três meses que se seguiram Isaac  ficou me evitando, sem dar notícias e eu estava bastante chateada  e sem saber o que fazer.  Então  meu pai decidiu que era hora de saber das intenções do jovem.  Isaac  tinha mencionado casamento  mas tinha se esquivado.  No entanto continuava  a frequentar o mesmo círculo  social.  Vendo a minha tristeza meu pai refletiu e convidou  Isaac para uma conversa.  Queria saber se e quando seria o noivado para poder programar  e marcar o casamento.   Isaac veio e depois de ouvir meu pai,  exclamou  : –“Noivar,… casar..?  …Eu disse que, se ela fosse viajar comigo para Israel,  aí sim casaria … mas só  se ela fosse comigo para Israel.  Como não é o caso, não quero noivar e.. casamento nem falar!!”.  Fiquei desapontada, triste, terminamos o namoro e meu pai  mostrou-lhe a porta.de saída….

Passaram-se nove meses e meio. Aos poucos fui tentando esquecer e me conformar;  eu estava com o coração partido!

Um dia Simão apareceu  em casa -“ Por favor venha comigo. Tem alguém do outro lado da rua que quer lhe  falar”.

Saí de casa e meu coração bateu  forte, lá estava o Isaac.

Estava bem abatido, com barba por fazer e com profundas olheiras;

Quando  me viu,  veio em minha  direção  correndo,  parou na minha frente e com os olhos lacrimejando falou   -“ Desde o nosso último encontro não consigo dormir; você não me sai do pensamento.  Eu fui um bobo, não sei o que deu em mim, mas tive muito tempo para refletir, não devia ter falado daquele jeito. Me perdoe, me perdoe!!   Quero começar a minha vida e formar família com você.  Vou te levar para Israel sim e, sim, vamos casar  aqui  para a felicidade das nossas famílias.   Eu te amo e te quero como esposa. Você é a minha escolhida, a mulher da minha vida!  Case  comigo”.   Ah, foi um pedido tão romântico !

Então, sob a garoa fina,  de uma tarde fria de inverno, numa esquina pouco movimentada da rua Augusta. eu disse o SIM.  A alegria foi total!.  Nosso enlace foi em 1950.  Foram 59 anos de convivência e de casamento muito feliz e abençoado com dois filhos.

Paisagens

outono

Sou visitante cronológico de paisagens da vida, da minha vida..

Hoje, para entendê-las preciso revisitá-las.

Deixo os meus pensamentos fluírem.. Uma doce sensação  percorre o meu ser..

Necessito compreender melhor  e me sinto transportada   ao Bois de Boulogne, Paris, 1945.

Uma sensação doce, alegre, protegida pelo calor e carinho da minha mãe me leva a reviver  os momentos da primeira paisagem.

Fecho os olhos e me vejo na alameda enfeitada por inúmeras árvores,  soldados  em saudação militar.

Uma alameda  onde o solo  é um tapete coberto  por folhas que abandonaram o verde para oferecer uma moldura de cores amarelas, castanhas  e com tons laranja .

Hoje, percebo o significado da cor de cada folha e cada cor me lembra uma fase das paisagens da minha vida.

Um quadro  lindo que está vivo em minha mente; o tapete de outono..

HISTÓRIAS DE MEMÓRIA: QUERER É PODER

recomeço

 

Sempre gostei muito de estudar.

Tinha 14 anos quando meu pai me tirou da escola. Faltava pouco para completar o colegial. –“Meninas não precisam saber muito”.  “Você vai me ajudar. Vai ficar  no armazém enquanto fico no açougue”.  Meu pai era muito severo e não aceitava “não” como resposta.

Fiquei muito triste. Eu gostava tanto dos livros e da escola!  Meu sonho era me formar em Direito, me tornar defensora das leis.  Eu detestava aquele trabalho; o dia todo atrás de um balcão servindo até bebida para um bando de homens toscos! Hoje reconheço que aquele não era um trabalho para uma menina da minha idade.

Meu pai, porém, não era uma pessoa muito refinada. Trabalhava muito. A cultura dele se limitava ao terceiro ano do primário.  Era um bom pai, no sentido de não deixar faltar comida na mesa. Raramente havia um gesto de carinho para os filhos e não me recordo de ter havido uma só vez em que ele levantou a voz conosco, mas quando pronunciava uma palavra era muito enérgico.

Eu queria a todo custo continuar os estudos mas como fazer!  Minha tristeza era tanta que de noite enfiava a cabeça no travesseiro e chorava baixinho para não ser ouvida pelas minhas irmãs que dormiam no mesmo quarto. Durante o dia, nas horas vagas, eu lia e relia os livros escolares, única leitura permitida, pois meu pai proibia livros e eu não queria esquecer o que já tinha aprendido.  Sempre repetia: “Meninas não precisam saber muito. Basta saber ler e escrever mais ou menos; é suficiente.  Filosofar, só com as panelas!”. Eu até já tinha decorado os livros!

O tempo passou  e aos 17 anos meu pai me casou.  Casamento arranjado. Eu tive sorte! Meu marido era um homem bom, compreensivo e com formação universitária. Bem mais velho do que eu. Um companheiro que aprendi a amar muito.

Tive 3 filhos maravilhosos. Cresceram; saíram debaixo das minhas asas.

No entanto, o desejo de dar prosseguimento aos meus estudos estava sempre presente. Pedi, implorei meu marido para me deixar voltar aos estudos.

Então, ele decidiu que eu poderia retornar aos estudos e terminar o inacabado. Porém, não foi exatamente como eu desejava. Voltar aos estudos eu poderia, mas deveria me formar em contabilidade para poder ajudar na parte administrativa dos negócios. Sem outra opção achei melhor concordar.  Foi assim que me formei contadora.

Contudo, não estava feliz. O que eu queria era cursar Direito e defender causas. Isto me fascinava.   Na   época   meu  filho  mais   velho    entrou no  cursinho  pré-vestibular para seguir o curso de veterinário  e  um dia chegou perto de mim, me abraçou, pegou na minha mão e disse:

– “ Mãe, porque não faz o cursinho  comigo;  pode deixar que eu vou falar com  papai”.  Fiquei surpresa!   O  meu coração bateu mais forte. Fiquei ansiosa; estava com certo receio. Será que ele ia conseguir aprovação do pai.  Ouvi os dois conversarem na sala. O dia passou e a noite, na hora do jantar, para  minha alegria o meu marido declarou que apoiava a ideia de retornar a faculdade.   Fiz o cursinho  junto com o meu filho.  Eu estava radiante.

Veio o grande dia e fiz o exame.  O sonho estava prestes a se realizar. Quando fui verificar o resultado  quase desmaiei de felicidade. Meu nome estava na lista e no segundo lugar.  Fui aprovada!  Meu filho me abraçou, me beijou, me apertava as mãos e sorria todo orgulhoso.

Cinco anos mais tarde me formei em Direito Civil com mestrado.

Hoje, aos 89 anos, sou uma advogada aposentada cujo sonho se tornou realidade e cujos esforços foram recompensados.

Nunca diga “não posso”!

 

 

 

 

Reflexões do Cotidiano

Na rua observo as pessoas que me rodeiam, vejo as expressões, os sorrisos e as decepções que marcam estes rostos.  Não sei o que pensar, fico um pouco confuso ou talvez amedrontado,  pois  de repente consigo ler  e entender cada olhar destes seres humanos.  Estou assustado comigo!

Hoje, no metrô,  entrou  uma senhora segurando uma criança no colo e outra na mão, pedindo “um trocado”. Sua aparência traduzia claramente o seu estado de mendicidade.

Duas senhoras sentadas no banco para idosos, discutiam sobre a facilidade de procriação de semelhantes indivíduos.

Eu, do lado, só estava ouvindo. “..Só sabem fazer filhos, educar nem pensar..” “.. e ainda pode ser que estes nem sejam filhos dela, talvez emprestados para mendigar…”   Não pude ouvir mais.

Desci na próxima estação.

Entro no taxi.  O motorista começa um monologo. Sou obrigado a ouvir que o aluguel de um carro de praça é de R$ 5.000,00.  Que não dá para pagar, que tem que sustentar a família, que não consegue ganhar 200 reais por dia, que a vida está difícil, que isto e que aquilo..  Eu não respondo, não comento.  Ele está tão preocupado que não o vê farol ficar vermelho e quase bate o carro.  Eu fico assustado mas permaneço em silêncio.  Ainda faltam 7 minutos para chegar ao meu destino .  Melhor deixar…

Finalmente cheguei!  Desço do taxi feliz por estar inteiro. O portão do prédio se abre e estou a salvo deste mundo cruel!  Entro no elevador. Terceiro andar. É o meu. Chave na fechadura, a porta se abre e ingresso no sagrado terreno, o meu ‘cantinho do céu’.

O Rei dos Loucos

O mundo se tornou um grande hospital psiquiátrico onde os loucos passeiam em liberdade.  Cada país elege  o seu chefe, o Rei dos Loucos.   Para evitar que o rei dos loucos fique entediado  ele recebe brinquedos; soldadinhos, caminhões, tanques e canhões. Então os Reis dos Loucos do mundo inteiro fazem comparação de seus brinquedos. –“ Você viu só o meu submarino?”.  –“E você, já viu o alcance do meu tanque?”  Todas as noites eles brincam até tarde; criam a bomba.  Empurram seus soldadinhos que desaparecem sob os estilhaços de armas  e quando não há mais nenhum,  são substituídos por outros. Assim, os reis dos loucos trocam  de brinquedos -: “Te empresto meu petróleo !”  -“ Fechado, mas você me dá a tua bomba de nêutron!”  -“Tudo bem, me dá teu urânio e  te darei meus caminhões cheios de soldadinhos!”.

Mas, existem também reis que não tem nada para trocar. Não possuem brinquedos e mal tem o que comer.  Apenas tem direito a um pequeno lanche a tarde e que deve ser dividido em três partes. É a vida do terceiro mundo. E os reis dos loucos do mundo inteiro  querem se divertir e jogam sementinhas de partículas atômicas sobre este pobre reino.

De vez em quando chega, um médico que quer tratar os loucos.  É chamado de “Premio Nobel da Paz”.  Ele recebe uma medalha que é colocada na lapela, no lugar do coração e  cujo brilho intenso pode servir de mira para eliminá-lo.

E a vida continua!

Os reis dos loucos do mundo inteiro são cercados por débeis que eles escolhem. O primeiro débil, o débil das finanças, o débil dos exércitos e a isto dá-se o nome de “um governo”.  Assim, no mundo inteiro os débeis dão conselhos aos reis dos loucos para governar os idiotas.  E os idiotas somos nós, sempre!  Mas se todos os idiotas do mundo quisessem se dar as mãos, os reis dos loucos seriam obrigados a quebrar seus brinquedos, seus tanques, seus canhões e finalmente poderíamos passear em paz nos jardins da terra que são tão lindos quando não há guerra.