Vicky a cachorrinha pintada

 

A casa grande da Avenida Angelica estava toda iluminada.

O Shabat  já tinha terminado.

A luz ainda estava acesa no dormitório dos 4 garotos de 5 e 6 anos.  Eles estavam sentados, cada um na sua cama, vestindo pijama com estampas diferentes .

Eles aguardavam Miriam, a irmã mais velha.  Sabiam que se comportaram  muito bem e que a recompensa seria uma história antes de dormir.

Miriam entrou no quarto, deu um beijo de boa noite em cada um dos meninos e eles deslizaram para dentro dos lençóis.

-“Vai nos contar uma historia?” insistiu um menino de cabelos castanhos com franjinha e olhos verdes..

Miriam sorriu, sentou-se numa das camas, passou a mão na cabeça, num gesto de quem não sabe o que vai contar, e começou.

-“Bem, hoje vou contar a história da Aninha e de sua cachorrinha “

E, começou.

Aninha era uma menina de 13 anos e meio, de família muito humilde e morava em São José, um bairro pobre de João Pessoa que fica na  Paraíba. Ela era a mais velha;  por isto tinha que cuidar de suas 4 irmãzinhas. Só podia ir á escola se a mãe, que era diarista, ficasse em casa.  O pai tinha falecido.  O sonho de Aninha, que apesar de muito jovem era muito madura,  era sair de São José e ir para São Paulo  trabalhar,  ganhar dinheiro e estudar. Aninha queria  se tornar professora.   A prima Elsa, esta sim, tinha um emprego bom  em São Paulo. Aninha  tinha pedido secretamente para prima arrumar um lugar para trabalhar.  Um dia veio carta da prima avisando que  podia vir para São Paulo, pois tinha arranjado um emprego numa casa de família e com a carta veio o dinheiro da passagem e o endereço. Então, chegou o dia  e, mesmo com o coração apertado se despediu da mãe e dos irmãozinhos tristes.  Mas era o seu futuro…..

Foi assim que Aninha, aos 14 anos foi trabalhar na mansão de madame.

Madame morava numa casa muito grande lá na rua Estados Unidos  com  os gatos Pife e  Pafe  e  seu cachorro Mingo, um dálmata todo manchado.  A casa estava sempre cheia de visitas e Aninha  cozinhava, lavava e cuidava de tudo sozinha. Era muito trabalho,  mas ela gostava, pois tinha o seu cantinho, um quartinho bem modesto mas só dela.  Ela logo se acostumou com estava vida.

Um dia a menina teve que ir numa farmácia um pouco distante da casa.  Ao sair, viu um cachorrinho de pelo  marrom com colarinho e focinho  branquinho que, sentado, olhava para ela meio triste.

Era pequeno, um filhote sem raça definida.  Ela ficou encantada com ele, chegou perto, fez um carinho e em agradecimento recebeu duas lambidas. Com o coração apertado ela se separou do cãozinho e  foi andando de volta para casa. 

No entanto, o cachorrinho começou a segui-la.  Quando ela parava, ele também parava.  Ela continuou andando e o cãozinho a seguia.  –“Você não pode vir comigo!”  -“Vai embora..”  E ela continuava o seu caminho. Mas o cãozinho a seguia abanando o rabinho.  –“vá… xô.. não quero você.”  Aninha olhou para ele e num desespero exclamou –“Não pode vir comigo e eu não posso te levar.  Madame vai brigar comigo!” Bateu com os pés, tentou afugentar o animalzinho, mas de nada adiantou.  Ele fazia  meia volta, tentando enganá-la  e retornava trotando atrás dela. Durante todo o trajeto foi assim.

Aninha  tentou correr, se esconder atrás de um poste, de uma árvore, mas não houve jeito de espantar este bichinho que não desgrudava dela.  

Quando chegou  no portão, empurrou o quatro patas e, rapidamente,  entrou.   O que Aninha  não sabia,  é que havia um buraquinho na  cerca e foi aí,  que o cachorro conseguiu atravessar. 

Ela nem tinha chegado perto da porta quando viu o cãozinho sentado no primeiro degrau da escada, com as orelhinhas em pé todo feliz.  “Ai, meu Deus!” pensou.    –“O que é que vou fazer com você?!”  

O olhar do animalzinho  tocou o seu coração de menina.   

Então, não resistiu,   pegou ele, escondeu no avental e correu para o seu quarto.  Madame   já chamava por ela. 

Rapidamente abriu uma gaveta da cômoda que forrou com uma toalha e lá acomodou o animalzinho a quem deu o nome de Vicky.  –“Preste bem atenção”, disse  “Não pode chorar, latir ou fazer qualquer barulho, entendeu?!”   e foi atender madame.

E assim os dias passavam.  Aninha   trabalhava  mas dava umas escapadas para cuidar da Vicky com quem ela dividia as suas refeições.  De noite,  após o trabalho,  ia  passear no jardim da casa onde ela ensinava o animalzinho a pegar jornal, dar a patinha, rolar e fazer reverência e outras coisas também..  Tudo, em segredo, sem  madame saber.  Vicky parecia entender e adorava os momentos quando Aninha  a pegava no colo e ficava conversando acariciando a sua cabecinha.  Assim, a  amizade entre os dois foi se fortalecendo a cada dia.

Vicky estava crescendo, estava mais gordinha, seu pelo se tinha tornado dourado e macio, as orelhas estavam mais firmes e foi necessário trocar a sua moradia  “da gaveta”  para ‘debaixo da cama’.      Só que Vicky não ia ficar muito tempo sozinha! Os gatos Pife e Pafe logo a descobriram e os três se tornaram grandes amigos bagunceiros.

Pife era um gato siamês de olhos verdes com o pelo branco e cinza, sempre pronto para qualquer brincadeira e Pafe, um belo gato preto  que só se preocupava com a sua “toalete”  e ficava  horas se lambendo na sombra de uma árvore que havia no jardim.

Durante o dia, enquanto Aninha trabalhava, os três brincavam, bagunçando todo quarto de Aninha que ficava “de pernas pro ar”.  Aninha dava bronca, mas isto de nada adiantava. Os gatinhos desapareciam  num piscar de olho e Vicky ia se esconder debaixo da cama.

Certo dia, Aninha saiu para  fazer compras.  Quando voltou deixou as compras na cozinha e, como sempre fazia, foi para o quarto para ver Vicky,.  Ao abrir a porta, ficou  atônita !

Lá  estava madame, grudada no chão  como uma estatua  e Vicky sentada tranquilamente no tapetinho do quarto abanando o rabinho e os gatinhos assustados debaixo da cama.   –“O que é isto, quem te deu permissão de trazer um cão na minha casa?” Ela gritava   –“Garota, você tem uma semana para se livrar deste animal. Se ele ainda estiver aqui depois, vocês vão pra rua, os dois!  Entendeu bem!”       

Aninha tentou explicar,  mas madame estava  muito brava e não queria ouvir   nada.

Devia ter contado sobre a Vicky desde o principio,  foi um erro! Agora estava muito arrependida por não o ter feito!

Aninha correu, abraçou Vicky e chorou.  Não sabia o que fazer, tinha se apegado muito àquele animalzinho que era tudo para ela. No entanto, não tinha para onde ir. O que fazer; voltar para João Pessoa ? De jeito nenhum !  A prima certamente não ia poder ajudar; ela estava em casa de outra madame! 

Então, no dia seguinte, Aninha pegou o cãozinho,  levou-o e, muito a contragosto, foi oferecendo Vicky para as pessoas da vizinhança .  Foi de porta em porta para ver se alguém ia querer ficar com a cachorrinha .  Ninguém  a queria  nem mesmo as pessoas na rua.  Tentou todos os dias e quando chegou o fim de semana, Vicky ainda estava com ela. Não houve outro jeito; foi falar com a patroa . – “Madame”, disse ela  -“Ainda não consegui me livrar do meu cãozinho; me dá mais três dias, por favor.”  e madame concordou.

Durante os dias seguintes, a menina saiu diversas vezes  para fazer compras,  tentar encontrar um novo lar para Vicky e se separar dela.

Então no segundo dia aconteceu algo inesperado.  Enquanto Aninha estava ausente, o jornaleiro veio e jogou o jornal de madame na porta de entrada que estava aberta. Escondida debaixo de uma cadeira, Vicky resolveu que esta era a oportunidade de mostrar o que tinha aprendido . Abocanhando o jornal foi trotando, com rabinho abanando, em direção da poltrona onde  madame estava confortavelmente acomodada e lá o deixou.   A surpresa de  madame  foi  grande,  mas não fez  comentário sobre o ocorrido.

No final do terceiro dia.  Vendo que não podia se desfazer da Vicky,

Aninha , muito triste, começou a juntar as poucas roupas dentro da sacola.  Madame tinha sido bem clara, ‘rua para os dois’.!  … e ela ia para rua…

No quarto dia, de manhã cedo, ela vestiu sua roupa velha, deixou o uniforme em cima da cama,  pegou a sacola,  a cachorrinha e foi falar

com sua patroa.

 – “ Olha madame, eu vim me despedir.  Não consegui me desfazer da Vicky!   Acho que vou embora do jeito que  madame falou”.

Então,  madame olhou aquela garota magrinha com o olhar triste que estava diante dela segurando uma sacola velha e um cãozinho pintado.  Parou um instante, pôs a mão na cintura, e ficou pensativa. Aquele quadro  a deixou emocionada e pensou:  –“Não posso deixar esta menina ir embora assim,  é uma boa garota, trabalhadeira  e a cachorrinha.. é uma gracinha..”

Por um minuto o tempo parou… Finalmente  ouviu-se a voz de madame.

-“ Pensei melhor e decidi que você pode ficar com a tua cachorrinha, porém com uma condição: ela não pode mais  ficar no teu quarto, terá que ficar lá fora e você terá que cuidar disto!”

O rosto da menina se iluminou. Jogou a sacola no chão e perguntou sem acreditar no que ouvia 

 –“Posso mesmo ficar ?”   Madame sorriu e  fez sim com a cabeça. Aninha , num impulso de alegria pulou no pescoço de madame e a beijou e, Vicky  levantou as patas da frente, e soltou um latido diferente, algo como “muito obrigado…”.

Assim, Aninha permaneceu trabalhando naquela  casa . Madame começou a tratar Aninha de uma maneira diferente, como se fosse sua família.  Contratou outra pessoa  para fazer o serviço pesado e fez questão que Aninha voltasse a frequentar a escola.

Quando Aninha  voltava da escola , lá estava Vicky fazendo festa, pulando de alegria para o colo de Aninha.  Agora ela podia brincar com a cachorrinha sem temer madame.

O que ela não sabia,  é que madame também se afeiçoou a Vicky  que ela mesma levava passear na ausência de Aninha. 

Vicky trouxe muita alegria àquela casa!

Por coincidência, Aninha ficou sabendo que  madame  também era natural de João Pessoa e que o nome de ‘madame’ era Zuleide.

 

Com o tempo, Mingo e Vicky começaram a namorar e logo  Vicky tornou-se mamãe de uma linda ninhada  toda manchadinha.

 

…………………….

 

Miriam sorriu olhando  para as quatro camas. Os meninos tinham adormecido. 

Ela então levantou, fechou as cortinas, cobriu cada um, apagou a luz e saiu do quarto sem fazer barulho.

História de memória: Uma tarde no shopping

 

Sai de casa com o firme propósito de comprar um novo travesseiro numa das lojas do shopping.

Naturalmente, comprei… mas não um travesseiro  e sim uma calça nova e para combinar, um tênis novo …

De posse das minhas compras e orgulhosa dos meus pacotes, decidi descansar  e tomar um café na Kopenhagen.

Fazer compras cansa!!

Todas as mesinhas estavam ocupadas. Mas,  lá,  no cantinho direito do quadrado da loja,  avistei uma cadeira, aliás duas cadeiras livres.  A terceira estava ocupada por uma senhora  de aparência oriental tomando, o que devia ser um chocolate.  Ela olhou para mim, para os meus pacotes, sorriu e, com a mão, fez um sinal, dando a compreender  que eu podia me acomodar ao seu lado.

Me  ajeitei na mesa, ou melhor,  na cadeira com as minhas enormes sacolas sob os olhares da senhora  que olhava para mim e para as sacolas… para as sacolas e para mim.  De repente, perdeu a timidez oriental, sorriu e fez a observação   “- Senhora comprou muito né?”.  Fiquei surpresa com  o comentário vindo de uma pessoa  estranha .  Como resposta  apenas abanei a cabeça alegremente.

Meu café chegou.   Então teve inicio  a conversa sobre o tempo, sobre  o novo prefeito e  sobre a situação do Brasil.

Após esta introdução, a senhora japonesa, natural de Tokyo,  começou a contar.

Depois de completar os estudos no Japão, decidiu conhecer o mundo. Viajou por  dois anos, trabalhando como interprete em navios japoneses.   Isto graças ao domínio da língua inglesa.  Chegou no Brasil com 23 anos e foi logo para a comunidade japonesa situada perto de São Roque. Lá  dava aulas de japonês para os nascidos no Brasil.  Foi lá também que conheceu  um rapaz com quem se casou e teve filhos que hoje vivem no Japão. O marido faleceu e ela veio para São Paulo. Com tristeza relatou que após 40 anos de trabalho dedicado no hospital Nippon,  tinha sido dispensada inesperadamente de modo brusco e sem consideração  ou respeito. Isto ainda a estava magoando muito.

Voltando ao assunto: situação politica da sucessão presidencial, a senhora começou a me contar  com grande entusiasmo que, atualmente,  no Japão estavam acontecendo  eleições. Disse que  devido ao fuso horário, ela quase não dormia.  Ficava assistindo NHK  (rede de TV japonesa).

Ela queria inteirar-se de  tudo sobre as eleições.  Falou e explicou-me a respeito da monarquia e parlamentarismo. Me contou sobre o desejo de renuncia do atual imperador Hiroito por motivos de saúde e sobre a problemática  de um sucessor.  Também falou sobre Aiko, filha do imperador,  que não pode ser vista como sucessora.   -“ Isto porém deve mudar. “ explicou.

A cada nova descrição ela gesticulava muito com as suas mãos que me lembravam os  movimentos de uma gueixa.

Fiquei ali, sentada, olhando impressionada  este rosto,  outrora certamente bonito,  que hoje exibia os traços do tempo. Os olhos negros, pequenos e puxados acompanhavam as inúmeras expressões  desta face que se transformava  a cada nova palavra, seguindo a emoção dos relatos recordados

Eu ouvia com atenção e curiosidade a revelação desta riqueza de vivência e conhecimentos que esta mulher estava demostrando e transmitindo.

Tinham se passado quase duas horas do inicio da nossa conversa.

Olhei para  o relógio e levantei da cadeira. Já era tarde.  Foi neste instante que ela  também se levantou e se apresentou .

O nome dela é Kyoko e tem 85 anos.

Um encontro casual repleto de surpresas.

Visão vs Realidade

 

Na vida pode haver momentos de clareza inimagináveis.  Num clarão de segundos  ou milésimos de segundos podemos ter imagens sobre futuras paisagens da nossa vida. Normalmente  estes segundos parecem tão insignificantes que sequer os registramos.

Foi assim que aconteceu comigo.

Não saberia mais dizer quando e onde foi.  Apenas quero relatar o que vivenciei.

Uma imagem que nunca consegui entender, mas que hoje consigo traduzir:

Estou numa planície verde, enfeitada por pequenas margaridas e flores do campo onde o canto dos visitantes alados quebra o silêncio do vento.

Não muito distante ergue-se majestosamente uma montanha coberta de verde. De longe posso perceber uma trilha para se chegar ao topo ou passar para o outro lado.

Eu estou na planície, caminhando, segurando a mão de um menino moreno, lindo e sorridente,  encantado com a natureza.

De repente, no sopé da montanha, ele para, solta minha mão e começa a subir  a montanha .

Não quero permitir…  quero acompanhar… ir também…  mas…  ao invés, fico parada como uma estatua, sem entender o porque, sem conseguir seguir os seus passos.

Ele se afasta cada vez mais até sumir completamente da minha vista.   E eu estou só na encosta da montanha!

Hoje entendo esta visão.

O menino é meu filho, a minha estrelinha que hoje brilha no céu.  Ele largou a minha mão e subiu aquela montanha, para entrar numa paisagem desconhecida.

Compreendi que estou só e que terei que encontrar novos caminhos e fazer com que se  tornem a minha fonte, fonte esta que irei preencher com gestos de amor.  Só o amor pode suavizar a minha dor e só o amor me leva a crer que, não importa a perda que a vida impõe, é preciso continuar.

Histórias de memória: Oliveira, o taxista

Segunda-feira, 15.00 horas, tarde fria de outono.  O ponto de taxi está com seus carros brancos enfileirados enquanto os motoristas,  numa rodinha,  conversam alegremente. Com os corpos retesados pelo frio, eles esfregam as mãos  e dão pulinhos para se aquecer.  De vez enquanto um deles olha para trás na esperança de ver algum possível passageiro se aproximar.

De repente surge, não se sabe de onde, a figura de um coreano de estatura mediana.  Apressado, segurando uma grande mala de cor vinho  e com rodinhas,  ele corre na direção dos taxis gritando       :  -:”Quelo taxi .. muito plessa.. .”

Finalmente, é a ‘vez’ de Oliveira fazer a corrida, um rapaz alto, recém-casado, de uns 35 anos, moreno jambo, com covinha do lado esquerdo do rosto e um bigodinho muito bem aparado.

Seu apelido: Bigodin..

Bigodin se precipita para abrir a porta traseira direita do carro e o coreano joga  a mala no banco.

Ao chegar perto do semáforo, na esquina o taxista ouve gritos.  Ele olha pelo retrovisor, fica boquiaberto e vê o coreano gesticulando e correndo atrás do carro, gritando  -‘ladlão, lobo meu mala..”

Nesta mesma esquina uma viatura da policia de plantão está parada. Dentro estão dois policiais aguardando no sossego que algo de interessante aconteça.

Fazendo gestos desesperados e usando a mimica para se fazer entender, o coreano chega perto dos policiais,  aponta o taxi e, sem fôlego,  só consegue balbuciar : :-“Ladlão, oh, oh, ele com meu mala, lobo meu mala..”

Então um dos policiais o faz entrar no carro e assim tem inicio uma breve perseguição ao taxi, ao som de uma sirene inquisidora.

A viatura logo alcança o taxista que não estava entendo nada  e nem o motivo de tal rebuliço.  Bigodin  ficou  tão estupefato que nem soube responder às perguntas dos policiais.  –“Não, não, repito, não roubei mala nenhuma.  Pensei que o coreano estivesse atrás, sentado no banco. Não percebi que só estava a mala”.

O que aconteceu foi que, querendo ser super-prestativo e oferecer um bom serviço ao passageiro,  Bigodin  ajudou a abrir a porta do carro.  O coreano  jogou  a mala no banco e correu por trás do taxi para abrir a outra porta e entrar.   Porém o motorista já sentado ao volante não esperou, deu partida e saiu apenas com a mala e sem o coreano.  Não percebeu  o erro!

Rindo muito, os policiais acreditaram na versão do taxista assustado, que foi imediatamente liberado.

Um dos policiais entregou a mala ao coreano cujo comportamento estranho despertou a curiosidade dos homens da lei.

Pediram ao coreano que abrisse a mala para examinar o seu conteúdo.  Qual não foi a surpresa ao constatar  a existência de drogas, uma pistola e um rifle escondidos entre as roupas.

Consequentemente, o coreano foi escoltado até a delegacia onde foi atuado em flagrante e colocado atrás das grades.

Soube-se mais tarde que o individuo pertencia a uma quadrilha de contrabandistas procurados  na América do Sul.

A partir daquele dia,  Bigodin nunca mais esqueceu ninguém e antes de dar partida, passou a conferir a presença de cada passageiro, sentado no banco e com o cinto de segurança corretamente fechado.

Este episódio ele relembra rindo muito.

No ponto de taxi todos se divertem com esta história engraçada e a fama de Bigodin se espalhou pelos pontos de taxis de toda redondeza.

 

As quatro estações

No ano existem quatro estações e um momento em que elas se completam.

Se alguém desistir no INVERNO, perderá as promessas da PRIMAVERA, a beleza do VERÃO e as expectativas do OUTONO.

Não permita que a dor de uma estação destrua a alegria de todas as outras.

Não julgue a vida apenas por uma estação difícil.

Persista, pois através dos caminhos difíceis  melhores tempos certamente virão.

Eles virão de uma hora para outra!!

Histórias de memória: A apresentação

danceA turma de Santo Amaro era muito animada.  Todos gostavam muito de dançar, inclusive eu!. O “bailinho rodizio” dos sábados, realizado a cada final de semana na casa de outra pessoa, era ansiosamente aguardado por todos.  Os integrantes desta turma eram filhos de franceses, ingleses, alemães e húngaros. Mas a língua “união” era o português!

Foi numa destas festinhas que conheci Antônio Carlos. Ele era um paulistano de família ‘quatrocentão’.  Tal como eu, e os outros da turma, ele era fã de Bill Haley, Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Richie Valens e outros daquela época.. Era um ótimo dançarino e logo se tornou meu par.

A gente  se divertia muito.

Em 1957 eu morava num sobrado, na rua Artur de Azevedo em Pinheiros. Uma rua muito tranquila, estreita. Não havia movimento; só um carro estacionado, o do meu pai.  Há poucos metros de lá, estava um pequeno rio e uma ponte de cinco metros de comprimento que fazia a alegria de algumas pessoas que, nos dias quentes, ficavam pescando. Mas nunca vi peixes!

Uma São Paulo saudosa!

Minha mãe era modista e a casa estava sempre repleta de “freguesas”.  É assim que eram chamadas as ‘clientes’ de hoje.

Nas terças e quintas, na parte da manhã,  Antônio Carlos vinha para treinar as novas coreografias que iriamos apresentar nos bailinhos.  Como não tinha lugar dentro de casa, o treino era na rua mesmo, ao som de uma velha vitrola.  E dava tudo certo, pois não havia problema de trânsito.  O nosso publico eram os vizinhos velhos que não saiam de casa e que ficavam na janela apreciando. Eles adoravam !

Antônio Carlos trabalhava apenas meio dia; era bancário!

Por serem muito bons, a fama dos integrantes da turma de Santo Amaro se espalhou rapidamente. Na época, nós, os dançarinos, erámos considerados revolucionários por acompanhar o ritmo do rock’roll.

Em 1958  Bill Haley & Comets  vieram se apresentar em São Paulo no Teatro Paramount (hoje Teatro Renaud).  Foi então que a turma de Santo Amaro foi convidada  a fazer um teste para dançar durante a apresentação de Bill Haley.

Entusiasmo geral!

Eu fiquei muito feliz.   Meu pai, porém, não dividia a minha opinião. Aparecer  num palco, para ele não era coisa boa!  Mas tanto implorei que obtive sua permissão !

O primeiro passo  foi  fazer o teste de  seleção. Eu e Antônio Carlos estávamos  entre os quatro casais escolhidos. O dia da audição era aguardado por todos com enorme ansiedade. Finalmente chegou o dia.

Na coxia, eu esperava ser chamada; estava muito nervosa e o ‘frio na barriga’  só aumentava.  Antônio Carlos tentava me acalmar.  Chamaram o nosso nome.

Entrei no palco.  A música tocou. Mas então aconteceu… Fiquei  gelada, pregada ao chão e não conseguia sair do lugar. Meu parceiro, tentando me acordar desta letargia, me deu uma beliscada bem forte!  Doeu; mas nem assim.!   Não conseguia  me mexer direito..  Ao invés de ir para direita eu ia para frente e não conseguia  ir para esquerda..   Apesar de estar com o corpo duro, consegui dar um passo..  em falso, escorregar e machucar meu tornozelo.  O saiote de tule branco, não sei como,  se soltou da minha saia  prendeu a minha perna e me fez tropeçar . Sem querer, cai de mau jeito na direção dos braços de Antônio Carlos que, numa reação relâmpago, se afastou e  deixou que meu corpo caísse num verdadeiro estalo no solo do palco.

A música parou. Os outros participantes me olhavam atônitos. Tudo foi tão rápido.  Olhei para os jurados na primeira fileira e vi que alguns balançavam a cabeça rindo do espetáculo tragicômico enquanto outros só abaixavam a cabeça.

Desejei que o chão se abrisse para poder sumir, desaparecer, me tornar invisível!  Nem sei se senti a dor do tombo!  A vergonha e todos os olhares fixos em minha pessoa…  Não havia outro jeito, reagi .. peguei  minha coragem nas duas mãos   e, sem mesmo respirar direito, desapareci na coxia.   Minha trança se soltou, meu cabelo ficou espalhado no rosto!  Vi um dos meus sapatos caído na minha frente!

O mundo desabou!!!

Errei os passos e o teste  foi simplesmente  um fiasco!  Naturalmente não me escolheram   e nem ao Antônio Carlos que  ficou  furioso comigo.  Fomos reprovados, eliminados!

Eu estava muito triste, envergonhada, com raiva de mim mesma. Que decepção.  Antônio Carlos foi claro –“Você deu um show, mas um show de vergonha. .. é uma vergonha! “ –“…Não, não diga nada.. Tô indo..”  E, me largou assim, no meio da rua.

Eu tinha apenas 16 anos e um erro deste na minha vida de super-, hiper,-e  mega  fã  de Bill Haley  era inaceitável !

Na minha cabeça de 16 anos a vida não tinha mais sentido ! Não via como conseguir outra oportunidade.  Eu estava completamente desesperada isto significava a exclusão total do grupo.

Neste dia, meus pais haviam ido ao cinema perto do teatro e meu pai tinha deixado o carro num estacionamento que eu conhecia.

Saí da audição um trapo! Chorava muito.  Não queria ir para casa! Antônio Carlos se tinha evaporado.

Pensei, pensei muito; decidi ir até o estacionamento e soluçando, sentei no estribo do carro. Lá fiquei  aguardando meus pais, o rosto inchado de tanto chorar.  Finalmente, chegaram e após ouvir a minha tragédia,  riram da minha desgraça!

Eu estava inconsolável.

Faltavam 6 dias para  a Estreia!  Eu não queria comer e chorava o tempo todo. Não sabia o que fazer e não tinha notícias de Antônio Carlos!

Meu pai tinha um amigo americano, estabelecido no Brasil havia pouco tempo, que era empresário de artistas. Um dia ele veio jantar em casa.

Me conhecia há muito tempo, pois meu pai e ele tinham estado juntos durante a guerra. Quando me viu não me reconheceu.  Diante dele estava uma garotinha de 16 anos e meio, de tranças com os olhos vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar. Meu pai contou a ele a minha ‘desgraça’.   Ele só sorriu,  me deu um tapinha nas costas e voltei para o meu quarto tão infeliz quanto antes.

Até hoje não sei se foi graças a sua intervenção …ou não.

Dois dias depois, recebi o telefonema de um dos organizadores do show Bill Haley&Comets. Queria conversar comigo no lobby do Hotel Jaraguá. No dia e hora marcada fui encontrar a pessoa.  A surpresa foi grande, queria contratar um casal substituto para estreia. A pessoa se lembrava de mim e da minha desastrosa apresentação e, apesar disto, queria  me dar uma chance.  Fiquei muito emocionada e só tive palavras de agradecimento.

Agora o problema era outro: encontrar Antônio Carlos, que não queria me ver, “nem pintada”.  Telefonei para todos os amigos e 48 horas depois consegui Foram várias horas de explicações até conseguir convencê-lo.

Fizemos um novo teste. Ufa, deu tudo certo.

Finalmente estávamos prontos.!

E chegou o dia da  estreia .

No entanto, nós erámos apenas o casal substituto na coxia!  Talvez nem fossemos  entrar no palco.  Mas, pelo menos a gente estava lá.

Durante o intervalo, aconteceu algo inexplicável. A parceira de um dos rapazes começou a  se queixar de fortes dores no lado direito do abdômen e não conseguia ficar em pé.

O intervalo terminou e recebemos uma chamada urgente para substituir o casal.  De repente, Antônio Carlos me segurou pela mão e me  arrastou para o palco. Ele estava radiante!

Foi emocionante!

Dançar rock’n roll ao som de Bill Haley e seus Comets foi algo fantástico, inesquecível! As palmas foram muitas.

Conheci toda banda pessoalmente, conversei com cada um deles e até hoje guardo com todo carinho, no meu livrinho de recordações,  a foto  um pouco amarelada,  com os autógrafos de Bill Haley e seus Comets.

Histórias de Memória: O Pedido

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O que vou contar aconteceu em 1949, uma época em que  a  ‘turma do Cambuci’, formada por moças e rapazes,  se reunia uma vez por semana  para ir dançar ou ir ao cinema.  Era um grupo de jovens cujos pais, fugindo das atrocidades da guerra, se tinham refugiado no Brasil

Isaac e Simão, que eram amigos inseparáveis também faziam parte da turma.  Às quartas-feiras, como era costume, as moças iam ao cinema  na “Soirée das Moças” .

Havia muita amizade entre o grupo.

Isaac era ótimo dançarino e eu era seu par constante nos bailinhos. A gente se entendia muito bem e sempre que podíamos ficávamos horas e horas conversando.  Foi através destas longas conversas que comecei a conhecer melhor o Isaac.  Tinha 24 anos e era filho mais velho de pais poloneses.  Moreno alto, magro, com cabelos castanhos e cacheados,  tinha um coração de ouro e estava sempre pronto a ajudar quem precisasse. Rapaz  inteligente, divertido e carinhoso.  Foi assim que após meses de convivência, nossa amizade tornou-se namoro.  Mas, Isaac também tinha um sentimento sionista que me incomodava um pouco,  pois ficava muito tempo longe de mim. Ele estava terminando a sua formação de monitor num movimento juvenil judaico sionista que havia perto de Valinhos,  o “Achshara”.  Isto iria permitir a ele a experiência de  conviver um ano em Israel.

Numa destas “Soirée das Moças”,  quando eu estava assistindo um filme com a minha prima, Simão entrou no meio da sessão para se infiltrar na mesma fileira onde eu estava.  Sentou-se ao meu lado e cochichou  no meu ouvido  : -” Por favor venha comigo; há uma pessoa que quer lhe falar lá fora”.

Na calçada estava o Isaac nervoso andando pra lá e pra cá.  Ao  me ver,  sem aguardar minha pergunta e sem tomar folego disse   –”Olha, estou terminando “Achshara”  em Valinhos, logo viajarei para Israel e quero que você venha comigo.  A gente vai,  fica  junto e depois de chegarmos,  lá eu me caso com você, aceita?!”.  Fiquei atônita!

A verdade é que sempre esperei um dia ouvir alguém fazer o pedido, mas de uma maneira mais romântica!   Pedido de casamento feito desta forma, sem “pompas e circunstâncias” …Só podia ser brincadeira!

Como levar a sério alguém que faz um pedido tão sério de maneira tão leviana.  Tamanha foi a surpresa que não consegui pensar direito e nem responder!

Contei o ocorrido para meus pais.

Ficaram decepcionados.  –“Isaac é um bom rapaz, mas um rapaz de boa família deve falar com os pais da moça quando se trata de casamento”.   – “Ainda mais se tratando da minha única filha!”.  Foi o que disse meu pai.

Durante os três meses que se seguiram Isaac  ficou me evitando, sem dar notícias e eu estava bastante chateada  e sem saber o que fazer.  Então  meu pai decidiu que era hora de saber das intenções do jovem.  Isaac  tinha mencionado casamento  mas tinha se esquivado.  No entanto continuava  a frequentar o mesmo círculo  social.  Vendo a minha tristeza meu pai refletiu e convidou  Isaac para uma conversa.  Queria saber se e quando seria o noivado para poder programar  e marcar o casamento.   Isaac veio e depois de ouvir meu pai,  exclamou  : –“Noivar,… casar..?  …Eu disse que, se ela fosse viajar comigo para Israel,  aí sim casaria … mas só  se ela fosse comigo para Israel.  Como não é o caso, não quero noivar e.. casamento nem falar!!”.  Fiquei desapontada, triste, terminamos o namoro e meu pai  mostrou-lhe a porta.de saída….

Passaram-se nove meses e meio. Aos poucos fui tentando esquecer e me conformar;  eu estava com o coração partido!

Um dia Simão apareceu  em casa -“ Por favor venha comigo. Tem alguém do outro lado da rua que quer lhe  falar”.

Saí de casa e meu coração bateu  forte, lá estava o Isaac.

Estava bem abatido, com barba por fazer e com profundas olheiras;

Quando  me viu,  veio em minha  direção  correndo,  parou na minha frente e com os olhos lacrimejando falou   -“ Desde o nosso último encontro não consigo dormir; você não me sai do pensamento.  Eu fui um bobo, não sei o que deu em mim, mas tive muito tempo para refletir, não devia ter falado daquele jeito. Me perdoe, me perdoe!!   Quero começar a minha vida e formar família com você.  Vou te levar para Israel sim e, sim, vamos casar  aqui  para a felicidade das nossas famílias.   Eu te amo e te quero como esposa. Você é a minha escolhida, a mulher da minha vida!  Case  comigo”.   Ah, foi um pedido tão romântico !

Então, sob a garoa fina,  de uma tarde fria de inverno, numa esquina pouco movimentada da rua Augusta. eu disse o SIM.  A alegria foi total!.  Nosso enlace foi em 1950.  Foram 59 anos de convivência e de casamento muito feliz e abençoado com dois filhos.