Histórias de Memória – Vão-se os anéis e ficam os dedos

Ela estava lá, sentada, no meio de um circulo de pessoas. Cabelos grisalhos e rosto expressivo, mas olhos tristes.

Cheguei perto e perguntei o motivo desta tristeza. –“ Não sei. Estou um pouco depressiva!” . Percebi que mexia  na mão esquerda procurando algo que não existia. . Havia uma marca de aliança.  Então, com os olhos lacrimejando me disse –“ cada vez que olho para este dedo nu me lembro do meu    querido  marido , do anel e da aliança que sumiram e cujo valor sentimental é  imensurável”.

E começou a me contar. Naquele dia se sentiu mal e o filho a levou ao hospital. Antes de ser atendida desmaiou.  Imediatamente tiraram-lhe os anéis e os brincos, praxe do hospital. O filho colocou tudo no bolso e este assunto ficou esquecido.  Ela melhorou, teve alta e voltou para casa.

Dias depois, ao voltar de um compromisso de moto o filho foi assaltado. Os bandidos, armados,  levaram tudo que ele tinha inclusive  nos bolsos, mas não levaram a moto e não o machucaram.

No bolso estavam a aliança e o anel.  Então  ela  pegou na minha mão, olhou para mim sorrindo e disse quase mumurrando:

–“ Vão-se os anéis e ficam os dedos, mas o meu filho está vivo, com saúde e é isto que conta.”

 

 

 

Histórias de Memória – A Boneca

Eu tinha 6 anos Havia pouco tempo que meus pais, minha irmã e eu estávamos em São Paulo procedentes da Hungria. A vida era muito difícil.  Meu pai era alfaiate e minha mãe costureira.  Uma velha máquina de costura e um velho ferro de passar  eram os instrumentos de trabalho.   Nós erámos pobres.  Naquela época as crianças brincavam na rua.  A comida era escassa, mas no Shabat e nos  dias festivos  a mesa  era  mais  farta  e havia também guloseimas.   Ganhar brinquedos era um sonho impossível, pois o dinheiro era muito pouco.

Eu   queria  muito ter uma  boneca!  Até  hoje não sei porque,  imaginava que seria o carteiro que a traria. E um dia, ela veio. Não foi o carteiro que a trouxe.   Foi minha mãe que, no dia do meu aniversário, me fez a surpresa. Ganhei  uma caixa branca e dentro estava a boneca.   Era linda!   Bochechas  rosadas  e olhos negros  com vestido  amarelo de babado branco em volta do pescoço.     Todinha de papelão!

A caixa era comprida e mais parecia uma caminha. Tinha um travesseiro pequeninho amarelo e um cobertorzinho de retalhos coloridos que minha mãe tinha preparado com todo carinho.

A minha  boneca  era a coisa mais linda do mundo!  Eu brincava com ela o dia todo. Era minha filhinha que eu acalentava com carinho, a amiga com quem eu conversava   e a quem eu contava histórias e tudo que acontecia na minha vida de menina..  A  noite,  ela dormia comigo. Era a minha melhor amiga e, para mim, ela tinha vida.

Na época não havia ainda bonecas de porcelana. Existia a  boneca de celuloide de  material mais resistente, porém altamente inflamável e que era muito cara.  Uma boneca de papelão  era  a única coisa que minha mãe podia me proporcionar. Esta  boneca me trouxe muita felicidade. Eu a carregava sempre comigo.

No início da minha vida escolar e, muito a contragosto,  tinha que deixar a minha amada boneca em casa escondida da minha irmã mais nova. Eu a guardava escondida, enroladinha nos cobertores bem debaixo dos meus vestidinhos. Um dia ao voltar da escola procurei a boneca.  Não estava no lugar onde a tinha deixado!.

Onde estaria a minha boneca!  De repente dei um grito agudo, terrível, me deparei com algo horrível, fiquei imóvel.  Minha mãe veio correndo, assustada  para ver o que estava acontecendo. ….-“”Mataram a minha boneca…  mataram a minha filhinha… vocês mataram a minha filha..”  Chorava e gritava..  Eu tinha encontrado o que restava da minha boneca.

Durante a minha ausência, minha irmã,  que tinha apenas 4 anos,  encontrou  a boneca e brincando,  pegou uma bacia de água e deu um banho nela… Naturalmente, foi um desastre!  Com os restos do papelão molhado na mão, ou melhor, a massa do papelão,  eu tentava encontrar o rosto da boneca.

Fiquei  inconsolável.  Eu chorava muito e de nada adiantavam as palavras da minha mãe.

A tristeza tomou conta de mim de tal forma  que a noite fiquei com febre alta. O médico veio me ver. Tentou vários remédios, mas a febre não cedia.

Nada adiantava.  Então ele chamou minha mãe -: “Clinicamente ela está bem, mas a febre é consequência do estado emocional!”

Meus pais ficaram muito preocupados. Os dias passavam e aos poucos a febre foi baixando e devagar fui melhorando.  Eu estava fraca,  sem febre, mas continuava muito triste.

Dizem que o tempo é o melhor remédio..  Eu concordo..

Quando completei 9 anos meus pais me presentearam com uma verdadeira boneca de porcelana com cabelo e roupinhas, do jeito que sempre tinha sonhado.

No entanto, nunca esqueci  a minha querida boneca de papelão que tanto amei e que ficou na minha memória.

Isto aconteceu há 85 anos.

 

 

Marie Claire

 

 

A Roqueira

Subi no ônibus que estava quase lotado.  Um assento livre!  Que bom! Sentei do lado da janela.  Então, ao meu lado, sentou-se uma senhora.  Trajava calça  jeans, blusa  estampada com pequenos botões amarelos e um  tênis bem surrado. Os  cabelos brancos deixavam transparecer um rosto bronzeado que já apresentava os sinais do tempo.  Olhou para mim, se ajeitou no banco, me empurrou para o lado, sorriu  e.. -“ Nossa como está abafado aqui dentro, né?!” Balancei a cabeça em sinal de sim.

O motorista deu partida e iniciou a sua trajetória.

Ela  continuou –“.. este tempo me faz sofrer. Estou com muita dor nas pernas, nas ancas..  Ah, como é mesmo que o médico disse que se chamava?.. Ah é, lombar isto mesmo, dores na parte da lombar.”  Ela suspirava  enquanto segurava um enorme envelope de laboratório e me empurrava ainda mais para janela.  –“ Estou indo ao médico. Eu já fui internada várias vezes, sabe. Por causa da  diverticulite.”   Eu queria dizer algo, mas ela estava tão empolgada  que não permitiu que eu falasse.   -” ..tenho artrose no joelho e ombro, problemas na cervical,  diabete,  pressão alta, reumatismo e colesterol.”  Eu queria dizer o quanto sentia por ela, mas não me deixou falar     –“ … acho  que isto é consequência da vida que levei quando jovem.”

O trânsito estava ruim; o ônibus agora estava parado.  .. Me deu mais uma empurrada.  Estava bem apertado no assento!  Então perguntou sorrindo

-“ Você gosta de Rock metaleiro?”    – “ Pois é,  eu adorava isto; ainda gosto muito. Nunca perdi um show.  Eu era do rock pesado. Saia com os amigos, mochila nas costas carregando barraca para uma só pessoa.  Pedia carona na estrada e dormia ao relento.  Claro que fugi de casa várias vezes. Mas no interior é fácil encontrar quem foge!  A primeira fuga foi aos 13 anos.  Me trouxeram de volta para casa!  Aos 16 fui de novo.  Desta vez fiquei longe de casa por um bom tempo. Foi na época do Paz Amor e Drogas.  Usei até argolinha no nariz e piercing na língua, eu fumava, cheirava e me drogava também. Como todos, né!”   -“Naquela época tudo era bem mais fácil do que hoje.  Imagine você,  quando vi que estava me tornando  dependente das drogas, decidi me tratar e fui, por iniciativa própria eu mesma procurar ajuda. Me internei,  me desintoxiquei e consegui me livrar das drogas.  Estou limpa há muitos anos, mas os efeitos daquela época surgem agora, aos 70 anos.  Estou pagando caro por tudo que fiz na juventude.  E, se quer saber ainda faço todo trabalho de casa. Passo, lavo, cozinho e mantenho a casa limpa.  Faço tudo!  Minha filha e meu neto, no entanto não fazem nada.“  Ela tirou uma carteira do bolso e me mostro a foto da filha e do neto.  –“Ela sofre de uma doença muito grave.  O que ela tem é preguiça’!”.

O ônibus  estava chegando ao seu destino.  Parou.   Os passageiros desciam um a um . A senhora  virou-se,  olhou para mim com um grande sorriso e disse   –“Ah, foi um prazer conversar com você, agora vou pegar o metrô.”  Levantou-se e lentamente  desceu os degraus do ônibus.”

 

 

Marie Claire

 

Setembro/2014

 

 

O Galo Vandeco – Um ato heróico

Quando a campainha da porta soou,  naquela manhã de  pascoa, Aninha a   filha de quatro anos dos Pereira correu para abrir e  encontrou um pintinho muito bem aninhado numa caixinha que estava no degrau da entrada.  Era como uma bola amarela e fofa com os olhos que pareciam  duas continhas pretas brilhantes e um bico clarinho, sempre pronto a bicar tudo que estivesse ao seu alcance.

A menininha  entrou num verdadeiro êxtase, quando o pintinho, depois de pular desajeitadamente para fora da caixinha, começou a patinar por toda a parte da sala, muito cômico, cambaleando atrás dos calcanhares dela.

Tornaram-se grandes amigos.

O pintinho não via outra coisa neste mundo a não ser Aninha. Quando ela andava, ele a seguia; se ela corria, ele saracoteava ligeiro atrás dela.

Aninha deu ao pintinho o nome de Vandeco. Juntos, no jardim dos fundos, descobriram durante todo o verão seguinte, um verdadeiro mundo extraordinário .  A menina e o franginho  corriam atrás das borboletas, brincavam no amontoado de areia que ali havia num caixote e também brincavam de esconder entre as pequenas árvores.

Vandeco foi crescendo,  ficou maior que os galos comuns e, um ano depois, quando a segunda filinha dos Pereira nasceu, ele já era um camarada robusto e bem formado.

Após estudar por algum tempo a nova criaturinha de cabelos ruivos,  Vandeco bateu súbito as amplas asas contra os flancos.  Soltou de repente  um forte  grasnado, e se acomodou resolutamente ao lado do berço.

Com este grito estranho e selvagem, Vandeco estava proclamando aos quatro ventos que era enfim um galo adulto e, que sobre seus ombros pesava agora a grave responsabilidade de proteger e guardar um pequenino ser indefeso e fraco.

Não houve outro jeito, foi preciso levantá-lo a força para fora do quarto, apesar de todos os seus protestos e silvos.

 

 

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Com o passar das semanas, finalmente acabou por se infiltrar no seu pequeno miolo de galo, a noção de que o seu ar de sentinela só se tornava necessário quando a pequenina Cristiane ia para o jardim dos fundos tomar o seu banho de sol.

Nessa hora, ficava postado na  porta do jardim dos fundos, esperando.

Depois, quando o carrinho era colocado ao sol o galo se posicionava  debaixo dele, num estado de visível inquietação e a seguir lá ficava como um soldado em posição de sentinela.

A mamãe Pereira  tinha todos os motivos para se sentir grata pela ajuda que Vandeco vinha prestando.

Apesar dos pedidos constantes, era impossível ensinar Aninha e as suas amiguinhas de manterem fechado o portão do jardim dos fundos. No entanto, enquanto o galo estivesse lá, não havia ser humano ou irracional que ousasse penetrar o jardim.

Um belo dia uma epidemia de raiva surgiu entre os cachorros do bairro. E, na manhã de sábado, na hora em que o bebê estava no jardim com Vandeco fazendo sentinela debaixo do carrinho, uma amiga alarmada telefonou.

-“Acabo de ver um cachorro a caminho do seu jardim, e se não me engano este cão é raivoso”.

A mamãe  Pereira  ficou apavorada.  Logo pensou no portão; será que alguma criança o teria deixado aberto?  Ficou assustada e correu logo para os fundos da casa, sentindo as pernas tremendo de medo. Ainda  não tinha percorrido a metade da distância, quando pela segunda vez, ouviu o galo soltar aquele grasnado estrondoso e selvagem… Então compreendeu tudo!

Gritando pela filha, chegou até a  porta do jardim para se deparar com uma cena que ia se gravar na lembrança pelo resto da vida:  a menos de três metros do carrinho do bebê, estava um cachorro enorme, de olhos vermelhos e da boca escorria baba.

De asas abertas e com o bico de ébano abrindo e fechando em estalos ameaçadores, o galo avançava ao encontro dele…. Depois, tudo  se apagou  da consciência  desta  mãe desesperada  menos o desejo irresistível de pegar  o bebê em seus braços e fugir  de lá para um lugar seguro.

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Como conseguiu é talvez inexplicável ! Mas o certo é que se colocou  a salvo com a filha.  Assim que entrou, correu para telefonar à polícia.

Tremendo de medo a mãe  aflita se encostou à porta fechada, escutando a horripilante batalha que estava se travando lá fora.  Os latidos e grunhidos do cão raivoso gelaram o sangue nas veias e anunciavam  que Vandeco estava batalhando, palmo a palmo, por todo o jardim.  Os repetidos batidos de seus corpos em luta soavam surdamente na parede da casa.  Depois, o bater das grandes asas do galo, os estalos que ele dava com o bico e o som dos maxilares do cachorro foram se afastando e enfraquecendo….até que,  no final se ouviu o primeiro som de dor que Vandeco soltou.

Não havia arma de fogo dentro daquela casa, e não era possível  que a polícia chegasse ainda a tempo de salvá-lo!

Mamãe  Pereira  orava, pedindo a Deus que fizesse Vandeco  compreender, de algum modo, o perigo que corria e fugir do alcance do cão raivoso antes que fosse demasiadamente tarde.  Sra. Pereira sabia porém que ele não iria fugir a luta; o seu nobre coração simplesmente se recusava a pedir tréguas, enquanto o inimigo não fosse expulso do jardim.

……………….

Um dos policiais aproximou-se da porta e disse

-“ Quero que a Senhora veja um espetáculo como nunca tornará a ver!”.

O jardim estava deplorável.  As cadeiras estavam caídas. Flores e plantas pisoteadas.  O carrinho do bebê estava de pernas para o ar, e através do caixote de areia, que antes tinha sido a felicidade de uma garotinha e de um galo avermelhado e penugento, corriam em zigue-zague  rastros de sangue.  Atravessando o portão, de asas abertas, jazia o tão querido galo com  o longo pescoço estirado para fora e o bico de ébano tingido agora de escarlate.  Tinha o pescoço fraturado.  Um pouco além da porta do jardim, na calçada, jazia o corpo do cão.

-“Acho que a bala nem era necessária.”, disse o policial examinando com grande espanto a cabeça mutilada do cachorro.

 

 

 

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Algum instinto primitivo, talvez de um obscuro passado  selvagem, deve ter segredado a Vandeco que “resistisse” até expulsar o inimigo daquele pequeno pedaço de terra, para ele “sagrado”….

Como recordação deste feito,  mamãe Pereira  colocou no jardim uma pequena estátua  branca de Vandeco, o galo heroico.

Marie-Claire

 

 

 

Viver

São duas horas da tarde, o sol ainda está bem forte. André espia pela fresta da janela e observa o trecho da rua cortada por ruelas e avenidas.

Podia voltar à sua poltrona confortável e prosseguir com a leitura do livro que comprara na véspera. Sente-se porem atraído pela rua..

O homem indeciso fecha a janela.  Resolve optar pelo passeio.   Na porta do prédio sente a carícia do sol  quente no rosto e sai.  Aos poucos vê-se envolvido pela corrente da rua..

Ele anda.  Anda olhando para frente.  Sem rumo, ele anda.  De repente sente alguém  tocar o seu ombro.  Vira a cabeça.

–  “André !”   A exclamação sai dos lábios sorridentes  de um senhor de idade bem conservado.

– “Ruy; meu amigo!”.  O homem do prédio está surpreso.

Um aperto de mão prolongado; alegria  de se reverem.

– “Quanto tempo, hein!  Vai à algum lugar?”

– “Não, é  que …..”

–  “…. Então, venha comigo e deixe seu passeio para  outro dia.”

– “  Está bem. Aliás, desde que me aposentei, o meu tempo é ilimitado e não tenho muito o que fazer..”  O tom da voz deixa transparecer certa tristeza,

– “  Venha comigo, estou indo para casa.”  diz Ruy, chegando mais perto do amigo.

– “”Sabe,  hoje é aniversário de Irene, minha querida irmã.   Após o falecimento do marido passou a morar conosco.  Minha esposa  preparou uma pequena surpresa.”

André para um instante,  põe a mão na cabeça e exclama:

– “Mas como é que não me lembrei!… Ah, sim, a tua irmã! Há tempo que não a via!.”   Continua andando e olha para o amigo. – “  Espere um instante, não posso ir de mãos vazias, deixe-me comprar pelo menos flores.”

Diante da floricultura, após alguns minutos, volta com um ramo de flores do campo.

Seguem andando.

André olha o amigo com admiração e sorrindo  – “ Puxa Ruy,  você está em ótima forma!  O que faz para se manter assim?  Ninguém, mas ninguém  mesmo  diria que você tem todos aqueles anos!”

– “Ah, se você soubesse…” Ruy  tira um cartão do bolso e mostra ao amigo

-“ Descobri um  “clube”  que é ideal para  nós;  um centro  para terceira idade.  É ponto de  encontro de veteranos como nós.  É um lugar muito agradável;  lá  há várias atividades sociais e culturais e para todos os gostos.. E, tem uma coisa da qual você gosta muito: dançar !.  É um ambiente  alegre onde todos se sentem felizes.   Mas o bom mesmo é que  este ‘Clube’ aceita sócios sem pedir  “joia”. Ruy dá uma risadinha.   “ Desde que comecei a participar das atividades , me sinto outro”.

 

As palavras atingem o alvo.  O entusiasmo contagia o amigo.

– “ Eu gostaria…. “

– “Sim, mais tarde te contarei mais.  Agora , vamos  indo  rápido…”

Dobram a esquina e entram num prédio cinzento.  No  oitavo  andar , a campainha soa.  A porta se abre e aparece uma senhora de cabelos grisalhos, bem penteados.  Os rastros da idade ainda deixam transparecer uma beleza outrora certamente cativante.

-“ Mas…, por favor entrem depressa, não fiquem parados, a corrente de ar faz mal.”

Cumprimentam-se alegremente. Abraços e beijos. Se  dirigem para saleta.

– “Que lindas  flores !”  exclama Lenita, aquela que os recebera.  “A cunhada vai ficar contente.!” .  Coloca as flores num vaso junto às outras em cima de uma mesa festiva.    “ Que agradável surpresa; que bom ter você junto de novo.  Vai ficar para a surpresa?”

Ele meio acanhado: -“Bem, …”

– “Céus!   Este André nunca muda.  Sempre tão tímido… e, nem vai mudar…Esta não é uma festa especial… é apenas uma pequena surpresa para Irene que  amamos muito.”

André aproveita a oportunidade   e, sentado perto amigo indaga curioso :-“Conte-me mais sobre o tal clube.”

– “ Bem, contar mesmo, não dá; é preciso ver. É único no gênero.!

– “ Talvez seja realmente bom.     É ótimo a gente sentir-se satisfeito e ter algo que complete a vida, …   mas. ..” André  levanta os braços num gesto interrogativo.

Ruy olha para o amigo  tímido cujo desânimo emocional se torna evidente.

–“   Você não é o único a se sentir assim.” Suspira. – “ Veja, eu, não gostaria de passar por tudo que já passei.  Duas guerras. Uma roubou a minha

infância e  a outra a minha  juventude ”   e continua  “ Você está errado em viver a sua idade se amargurando.  E, se quer saber o segredo da minha

aparência, então ouça o que vou te dizer com atenção.  Depois de nos conhecermos há  trinta e cinco  anos Lenita e eu percebemos que devemos viver a nossa idade sem nos lamentar.  É simples; seguimos a lei natural.  Não esperamos milagres, mas descobrimos que o poder de fazer milagres está dentro de nós mesmos.  O pensamento  positivo, colocado em prática por um ‘veterano’, prova que é possível viver bem a sua idade.  Isto porem,  se realmente o desejar.  Sim,. “ Prossegue Ruy. – “ As emoções desagradáveis nos abatem, mas as agradáveis  nos curam mantendo o nosso bem-estar.  As nossas vidas são governadas pelo hábito, que por sua vez é governado por nós.  Portanto, levante a cabeça, enfrente tudo e pense nas minhas palavras.  Pense também que  te levarei ao “Clube”  e, tenho a certeza que você vai gostar”.

 

-“Será bom mesmo. Tua companhia me faz  bem.. Sabe, Ruy, você é o tipo de pessoa que estimula.”  Por um segundo o rosto de André pareceu triste.  Lembrou-se da companheira que se fora.

 

O ruído de chaves na fechadura da porta quebra o silêncio.

Por trás de um amontoado de pacotes que dois braços agarram, aparece um vulto  de mulher, empurrando a porta com o pé. É Irene!

.. A entrada desta pessoa é notável… Entra de costas. De pé, desajeitados, os dois senhores tentam ajudar.

Catástrofe… Desaba o monte

Passam-se alguns minutos e..

– “ Mas que prazer em revê-lo, André!”  diz uma senhora de estatura baixa beirando os sessenta.  E, prossegue :- Desculpem, volto num instante, vou guardar estes pacotes”. Desaparece deixando um aroma de colônia importada.

Os dois comentam.   -“ Ela está com ótima aparência”.

– “Sim, claro, também… Tem tudo que deseja e só faz o que gosta” diz Ruy espiando pela porta da sala entreaberta, onde uma mesa com as delicias já está pronta para comemoração.

……

A porta está aberta e, os quatro estão agora diante de uma  mesa com o bolo de aniversário.  Irene, emocionada, olha para os companheiros. –“Vocês se lembraram da minha data…!”  Os olhos se enchem de lágrimas.

-“ Vamos, vamos hoje é dia de comemorar e não de chorar!” exclama Ruy abraçando a irmã.

Os pedaços de bolo estão sendo saboreados.

 

Ruy suspira sorrindo – “Como é bom poder celebrar e viver a idade”

-“ Concordo”, responde Lenita, “Mas, no que concerne a idade devo dizer que na realidade tenho de idade os anos que faltam viver, pois os já vividos não contam mais. E, isto vale também pra vocês.  Todos os dias o sol renasce para mim, com nova inspiração, novas ideias e novas atividades. Afinal, velhice é apenas um estágio da existência. André, meu amigo, saiba que é na envelhescência  que nos damos conta que temos duas mãos. Uma para ajudar a nós mesmos e a outra para ajudar a quem precisar. Ruy e eu buscamos o sabor dos sentimentos e a cor da vida!”

Aplaudem os presentes… As vozes se confundem com o barulho dos talheres.

Os amigos festejam..

Como é bom saber viver !

Marie Claire

Novembro/2016